Teatro do Incêndio: emoções à flor da pele

Por: Renata Kyrillos

Diretor, dramaturgo e professor, Marcelo Marcus Fonseca mostra como fazer teatro de um jeito diferente.

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Edição nº 2 – Dezembro de 2014

Crédito: Marcos Lobo

Crédito: Marcos Lobo

1. Como surgiu a ideia de criar a Cia. Teatro do Incêndio?
Eu pretendia montar uma peça do Brecht, então consegui ficar na Oficina Oswald de Andrade para adaptar suas versões de Baal. Para produzir o espetáculo, entrei na sala de ensaio com Wanderley Martins, que fundou o grupo comigo. Resolvemos nos “cooperativar” como grupo de teatro, pois essa era a única maneira de viabilizar a produção. Mas a ideia também já era um desejo meu de criar um espaço para treinamento permanente. Com referências de Brecht e Stanislavski, conseguimos criar uma maneira muito específica de fazer teatro. Fundamos uma companhia que se chamava “TeatroAosTragos”, estreamos Baal e, a partir daí, foi se desenhando na linha do tempo uma trajetória sobre temas como a repreensão da criatividade, a homofobia, o racismo e, principalmente, o homem. O homem como ser humano inserido em uma máquina muito maior do que ele, sendo “engolido” o tempo todo, e sua forma de revidar.

2. Por que o nome “Teatro do Incêndio”?
Quando montei uma peça de Artaud, achei que precisava mudar a cabeça e o nome do grupo, mudar a mim mesmo e encontrar outra maneira de lidar com o nosso próprio corpo. O Artaud tinha um teatro chamado Teatro de Alfred Jarry, e um dos seus parceiros era Roger Vitrac. Nessa época, Roger Vitrac lançou uma trilogia chamada Teatro do Incêndio, o que me fez pensar: “Esse é um nome que vem daquela família, é um nome que me agrada e é um nome que traduz o desejo da companhia: provocar, transgredir e queimar o que não presta”.

3. Seus espetáculos se baseiam em pesquisas sobre experimentação. Como vocês definem “experimentação”?
O grupo foi assumindo um cotidiano de criação muito próprio. Nossa premissa é não ter preconceito com linguagem, então nós podemos mexer com Naturalismo, Expressionismo e etc. Com isso, ganhamos um prêmio para estudar Surrealismo, o que mudou a maneira do grupo se comportar. A gente passou a não partir de um texto escrito por alguém, mas a fazer associações dentro da própria sala de ensaio, criando a dramaturgia no cotidiano diante de temas específicos. Hoje, o que a gente procura fazer no trabalho de experimentação é radicalizar o não preconceito com a mistura de linguagens. O espetáculo novo que a gente vai estrear mistura Dadaísmo, Expressionismo e Realismo, procurando uma forma harmônica entre esses elementos e usando cada um deles para se relacionar melhor com o espectador diante do assunto ou questionamento proposto dentro da companhia.

Crédito: Marcos Lobo

Crédito: Marcos Lobo

4. Qual é o assunto abordado em “São Paulo Surrealista”?
Homofobia. São Paulo é uma cidade que incorpora qualquer coisa: preconceito, liberdade, seca. A gente faz uma provocação sobre a transformação da homofobia em um tipo de afeto. No fundo, a provocação é essa: todo homofóbico é um gay enrustido. Uma provocação por uma cidade absolutamente caótica e de informações incompletas durante o dia todo. Há uma linha narrativa para o espectador acompanhar o personagem. É uma chuva de informações sobre o que uma cidade te propõe quando você sai na rua.

5. Qual outro tema é abordado nos espetáculos do grupo?
A intolerância e a não aceitação do outro. “Eu sou o outro”. Se você entende isso, você consegue viver com as pessoas. É uma tentativa de anular o “eu”. Você não pode partir do princípio de que está certo se não sabe ouvir.

6. Qual é a intenção do grupo ao discutir assuntos polêmicos em uma sociedade em que muitos indivíduos são conservadores?
O grupo tem uma característica interativa em alguns espetáculos, mas procura maneiras de abordar o espectador sem obrigá-lo a participar, sem forçar a barra e sem deixar que ele se sinta constrangido durante a peça. O espectador tem o direito à “não interatividade”.

7. Como é a disposição física no Teatro do Incêndio?

Crédito: Don Fernando

Crédito: Don Fernando

Ela é pensada na disposição física do espectador. Em São Paulo Surrealista, a gente fica a 50 centímetros dele. No espetáculo novo, há proximidade e distância, então o teatro de São Paulo Surrealista será todo desmontado para criar outra estrutura. O experimentalismo vem da forma de lidar com o espaço e criar músicas. A luz é estudada com a movimentação, o texto e a criação da dramaturgia. Isso é uma tentativa de fazer um teatro em que todos os elementos consigam conversar de forma harmoniosa e tenham uma importância fundamental na criação. Se você tira um, derruba tudo.

8. Vocês já receberam comentários negativos dos indivíduos mais politicamente corretos?
Em mais de 250 apresentações, uma pessoa ou outra deve ter ido embora. O espetáculo é tão inclusivo que até quem vai armado se sente à vontade. Há algumas cenas de transgressão que estão dentro da lei, como fumar dentro de espaço fechado. Nesse caso, estamos amparados pela lei porque há liberdade artística em cena. Isso é uma provocação, não uma agressão. Uma provocação simpática à ação. É por isso que as pessoas vão, ficam à vontade, comem uva, tomam absinto e vinho durante o espetáculo e se sentem em um ritual dionisíaco.

9. Em “Manifesto da Desobscenidade”, você critica as imposições físicas e comportamentais praticadas pela polícia e pelos falsos cristãos. De que modo esses grupos interferem na vivência humana?
A vigilância ostensiva do cidadão é uma maneira de criar medo. Se você abre um teatro com a porta para a calçada, obriga o cara a ocupar a rua. Se ele ocupa a rua, a violência diminui. Ele entende que a cidade é do cidadão. O prefeito quer expandir a ideia de parque, onde aceitam a caminhada, a cor e a diferença, onde todo mundo é igual e onde violência não existe. O conceito é maravilhoso, mas as pessoas querem viver isoladas. Cada vez mais, são construídos condomínios monótonos onde as pessoas acham que têm o direito de viver. Nós temos o direito de andar na cidade, essa é uma maneira de você recuperar o contato humano. Nós somos contra tudo o que não permite a liberdade e o pensamento divergente, todo o fundamentalismo religioso que não aceita o outro lado. É uma espécie de opressão. As pessoas perderam a capacidade de ouvir. Ismael Silva, Carmen Miranda, Assis Valente e Cartola foram jogados pelo ralo porque têm músicas complexas. Não é qualquer menino que pega um violãozinho, faz dois acordes e consegue tocar isso. Aí a gravadora diz que o bom é comprar “Lepo Lepo”. Você vê um carro na rua tocando uma música insuportável, alta, invasiva. Ninguém escuta alguém tocando Cartola alto no carro. O que toca na rádio não gera civilidade.

10. Na prática, como o grupo se manifesta contra esses atos de repreensão?
Fisicamente, com humor, com trânsito entre linguagens, sugerindo outras relações de forma poética. “O verso do samba é conselho”, se você conseguir criar o clima dentro da sua estrutura de espetáculo para que o cara escute aquela frase e perceba aquele ensinamento de vida, você já está quebrando uma casca na qual ele não te deixa entrar. Então, cada trabalho de pesquisa é uma tentativa de recuperar a palavra e a maneira de se comunicar. A gente não tem uma verdade, mas uma maneira de se comunicar com o espectador. No fundo, é ele quem acaba dizendo como a gente deve se comunicar. O próprio experimento vai nos conduzir se nós tivermos a sabedoria de prestar atenção na caminhada e não achar que fizemos sucesso ou que fracassamos.

Crédito: Bob Sousa

Crédito: Bob Sousa

11. Para a Cia. Teatro do Incêndio, quais os principais elementos que definem a ideia de liberdade?
Eu acho que é a possibilidade de tratar de igual para igual as pessoas do teatro. Se a gente não consegue ter harmonia dentro do nosso núcleo, a gente não pode falar isso para o mundo. A gente não tem o direito de falar em nome de pessoas que não conseguem conviver dentro da própria casa. As pessoas têm o direito de pensar como elas quiserem, têm o direito a qualquer tipo de escolha, mas também têm o dever de saber não invadir a escolha do outro. Liberdade é um aprendizado. As pessoas não sabem viver na liberdade, elas sabem viver na opressão, com o chefe. A liberdade é você não precisar ser controlado, é você ter o direito de manifestar sua própria vontade, e isso não significa ter mau humor, brigar com os outros ou apunhalar uma faca.

12. Você afirma que a Cia. Teatro do Incêndio é anárquica e transgressora. Por quê?
Anárquica porque não aceita figuras de autoridade e transgressora porque a companhia não está abaixo de nenhum poder econômico. Ela é completamente independente. Comercialmente, pensamos nossos projetos de outra maneira: não se são produtos para vender, mas se são interessantes para o espectador.

13. Como a Cia. Teatro do Incêndio sobrevive há 18 anos sem ajuda do governo?
Bilheteria e público. Nós ganhamos um edital aqui, outro ali, administramos o dinheiro e vivemos um mês de cada vez. Tenho uma sede, isso facilita porque você tem condição de ensaiar, de trabalhar, de juntar o material. Mais do que um grupo, isso significa uma ideia de teatro, então não quero que morra comigo nem com os meus parceiros.

14. O que diferencia a Cia. Teatro do Incêndio dos demais grupos teatrais?
É a maneira como as pessoas daqui fazem arte, é o lugar que está aberto para a sua vocação. Eu sei que há uma paixão envolvida na criação, o teatro está acima dos outros assuntos. Há um respeito profundo pela arte do teatro, não pelo ator ou diretor. Eu só entendo que ela (companhia) é importante porque consegue viver dessa paixão.