A complexidade de uma revolta

Por: Francisco Nunes

Historiadora lança luzes sobre os estudos do Brasil Contemporâneo através da Revolta da Sabinada

 

 

É comum ouvir que a história, na maioria das vezes, é contada na perspectiva da elite. Com a publicação do livro Identidades Políticas e Raciais na Sabinada (Bahia, 1837-1838), da historiadora Juliana Serzedello Crespim Lopes, pode-se examinar a participação dos setores médios da população de Salvador na Sabinada. A autora descreve o caleidoscópio de fatores que envolveram esse movimento tão importante.

A Sabinada foi uma das principais manifestações de insatisfação com as condições sociais, econômicas e políticas durante o Período Regencial. No dia 7 de novembro de 1837, um grupo político toma o poder em Salvador. O principal articulador é Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, médico, professor e publicista. Sabino publicava o jornal Novo Diário da Bahia, através do qual construía suas ideias políticas. É o período da chamada “Bahia Rebelde”, marcado por diversas revoltas, dentre elas a Revolta dos Malês, que havia impactado a Bahia dois anos antes.

Conforme Juliana Serzedello descreve, a crise na província da Bahia é consequência da redução na exportação de açúcar; das epidemias no gado; das secas que aumentaram os preços da alimentação básica; da especulação
que provocou uma onda inflacionária; das moedas falsas que circulavam em grande quantidade, deteriorando
as relações comerciais. Os mais penalizados foram os negros escravizados, porque eram mais exigidos na sua já cansativa jornada de trabalho.

A autora faz uma cuidadosa revisão bibliográfica do tema e apresenta um amplo panorama historiográfico. Passando pelos documentos do Arquivo Público do Estado da Bahia até chegar aos estudos mais recentes sobre a Sabinada. Mas a contribuição deste trabalho está no enfrentamento da complexidade da revolta. O movimento liderado por Francisco Sabino vive uma série de paradoxos, tais como: apresenta-se como “separatista”, mas alguns dias depois da tomada do poder retifica a declaração e diz que, quando Dom Pedro II atingir a maioridade, retornará ao jugo do Imperador; formado por setores médios da sociedade, o movimento recusa a participação da “elite”, mas não consegue se consolidar no meio popular; promete abolir a escravidão, mas recua e contempla apenas os negros nascidos no Brasil (os crioulos); defendem ideias liberais, mas não se posicionam como republicanos ou federalistas.

O leitor vai encontrar um panorama sobre os jornais da época; uma descrição sobre a “categoria raça” sob o ponto de vista de diversos teóricos; e um painel dos conflitos entre os diversos projetos políticos em disputa nesse período. Além disso, o tema das identidades raciais é abordado detalhadamente, seja do ponto de vista teórico, bem como nas suas manifestações ao longo dos séculos XIX e XX.

Sabemos que o conceito de raça é uma construção social. Juliana Serzedello diz que uma hipótese sobre a prática do racismo vem do Antigo Regime até o século XVIII, para distinguir a nobreza e sua linhagem. Para Hannah Arendt as ideias e práticas racistas atingem seu ponto máximo em meados do século XX com os regimes totalitários europeus. Na compreensão de Michel Foucault, o racismo moderno representa uma disputa de poder no interior das nações em formação. E, para Louis Dumont, o racismo na sociedade moderna aparentemente igualitária possibilita
a retomada do modelo de sociedade excludente e hierárquica. No caso do Brasil, Lilia Schwarcz ressalta a contradição entre o pensamento racista e o pensamento iluminista; e afirma que o termo raça é um conceito negociado.

A Bahia do século XIX é marcadamente miscigenada, e os negros predominavam. As tensões baseadas na cor da pele eram muitas, mas não se circunscreviam ao binômio “branco e negro”. Dava-se um tratamento distinto aos negros nascidos no Brasil, os crioulos, em oposição aos negros nascidos no continente africano. Com os tipos miscigenados, aumentava a complexidade dos conflitos. O historiador João José Reis amplia a variedade de classificações ao mostrar que havia “diferentes cores entre os nascidos no Brasil”, que, por sua vez, eram tratados de maneiras distintas: o negro era chamado de crioulo; o mestiço de mulato com crioulo era chamado de “mulato” ou de “pardo”; havia o branco brasileiro e o branco europeu, na maioria das vezes o português. Entre os africanos,
as diferenças eram marcadas pelas etnias, chamadas de “nações”.

O termo “raça” está explícito no texto fundamental da Sabinada, o “Plano de Revolução”, onde se lê: “Não é de certo por defeito de raças [que o Brasil se mantém politicamente atrasado em relação aos demais países da América], como alguns escritores pretendem, porque a raça brasileira é das mais vivas e talentosas”. Nas fileiras das tropas rebeldes havia o Major Santa Eufrásia, negro nascido no Brasil, que se destacou por liderar os batalhões
rebeldes, considerado um “crioulo de muito valor”. Após a derrota da Sabinada pelas forças legalistas, começa a
“restauração”, num clima de terror e revanchismo. Os negros são as maiores vítimas da repressão.