Arte nas universidades

Por: Bruna Sabino

Em entrevista, o ator Paulo Goulart filho explica o projeto “Teatro nas Universidades”, que aproxima os jovens universitários da arte

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Edição nº 1 – 2014

Arruaça-Entrevista-Bruna SabinoEra um fim de tarde chuvoso aquele 20 de maio. O trânsito na cidade de São Paulo estava caótico em função da greve dos motoristas de ônibus. A paralização do serviço dificultava a locomoção na metrópole, e a chuva fina que caía contribuía para o caos. Apesar da aparente apreensão pela situação, os atores Roberto Arduin e Paulo Goulart Filho compareceram ao Teatro Cásper Líbero naquele dia uma hora antes do início da apresentação de “13”, o espetáculo que integra o projeto “Teatro nas Universidades”, carinhosamente apelidado de TU pelos produtores.

Idealizado pelo casal de atores Nicette Bruno e Paulo Goulart há 10 anos, o projeto tem por objetivo promover o teatro em espaços de formação universitária, como ferramenta de construção crítica, organizando debates, realizados ao final das apresentações.

Após o aquecimento vocal e a passagem de som e luz, os atores iniciaram a apresentação no Teatro Cásper Líbero, assistidos por uma plateia formada majoritariamente por alunos e professores, embora houvesse também alguns convidados no local. A história do espetáculo “13” é ambientada na década de 70, no auge da loteria esportiva, e trata da relação entre empregado e patrão, representados pelos personagens Paulo, empresário bem-sucedido, interpretado por Roberto, e Pedro, seu motorista, papel que coube a Paulo Goulart Filho.

Na peça, Paulo nota a inquietação de seu subordinado acompanhando os últimos jogos de futebol da semana e descobre que o motorista está prestes a fechar os 13 pontos da loteria esportiva em uma semana repleta de “zebras”. A partir daí começam as discussões sobre limites, semelhanças e diferenças e da noção de direito do cidadão. Após 1h20 de apresentação, os atores permaneceram no palco para o debate com o público.

Paulistano, nascido em 13 de Março de 1965, Paulo Goulart Filho, formou-se em educação física, mas acabou apaixonando-se pela dança. Filho do casal de atores Nicette Bruno e Paulo Goulart, e irmão das atrizes Beth Goulart e Bárbara Bruno, desde menino ele esteve em contato com a arte, e nos bastidores encantou-se pela profissão de ator, que viria a ser seu ofício e sua paixão.

Paulo concedeu a seguinte entrevista, na qual fala sobre o projeto idealizado pelos pais, o teatro e suas expectativas artísticas.

O que motivou seus pais a criarem o projeto “Teatro nas Universidades”?
Já há muito tempo, há muitos anos, eles sempre quiseram cumprir essa parte social de levar espetáculos para estudantes, já fizemos para vestibulandos, enfim, eles sempre quiseram levar o teatro para o jovem, esse era o intuito deles. Então há dez anos, junto com o Guilherme Afif Domingos, da Associação Comercial de São Paulo, conseguiram viabilizar esse projeto para os universitários.

Qual o critério para a escolha das Universidades ou Faculdades nas quais realizam as apresentações?
Na verdade, procuramos atender o máximo possível de unidades, o que precisa ter é um espaço físico, um teatro mínimo, para podermos levar as peças com a estrutura de luz, som. Já fizemos em lugares bem precários, mas o importante é isso, ter a estrutura mínima e a parceria com a universidade de levar os alunos.

Como é realizado o processo de escolha dos roteiros que irão se transformar em espetáculos? Existem algumas condições prévias a serem atendidas?
Na verdade não existem critérios que precisam ser atendidos, porque somos nós que fazemos esta escolha, eu, algum tempo atrás, meu pai, minha mãe. Nós procuramos abordar diversos temas, já apresentamos 17 espetáculos com os temas mais diversos possível, que sejam interessantes para causar uma reflexão no aluno. Nossa proposta é esta, seja levar comédia, drama, enfim, o mais diferente possível para que os alunos tenham ideia da diversidade.

E quanto à formação do elenco?
Nós trabalhamos muito com espetáculos prontos, de outras produções. O espetáculo já está pronto, nós vamos, assistimos, se gostamos, contratamos o espetáculo. Quando a produção é nossa, nós escolhemos os colegas com os quais queremos trabalhar.

Por que os jovens universitários são o público-alvo do projeto?
Na época isso veio muito através do próprio Guilherme Afif que tinha muita entrada nas universidades, foi por isso por haver a chance de se viabilizar por meio das universidades. Gostaríamos que houvesse projetos deste tipo para todos os alunos, desde a pré-escola, afinal é um direito nosso. Nós também optamos pelos universitários porque eles são os próximos empreendedores, que tocarão este país pela frente.

Além da Lei Rouanet, que outros incentivos mantêm o projeto ao longo desses nove anos?
Agora, por enquanto só a Lei Rouanet, mas existe outra também que é a Lei do Proac, só aqui em São Paulo, que é do ICMS. São essas duas leis de incentivo do TU.

Em um tempo dominado pela rapidez e pelo imediatismo, quais são os desafios que projetos culturais como esse enfrentam?
O Teatro, especificamente, é bem difícil porque o jovem se afastou muito da arte. A nossa batalha no projeto é essa, já que o jovem não vai ao teatro, o teatro vai até ele. É complicado porque hoje em dia se tem tudo na ponta dos dedos, na mão, no computador, mas ao mesmo tempo nada substitui a troca de energia que há no teatro, o contato com a pessoa, vê-la ao vivo, realizando um trabalho, é único, por isso acredito que o teatro não morrerá nunca.

Como tornar uma arte tão artesanal como o teatro atraente nos dias de hoje, dominados pela tecnologia?
O fato de ser artesanal é o grande diferencial dessa arte. O que você sente no teatro, vendo o ator ali ao vivo, respirando, suando, a entrega, essa troca energética, só acontece no teatro, que é completamente diferente do cinema, da televisão, da internet, cada um tem o seu jeito. Meu pai costumava falar: quando você vê um atropelamento ali, acontecendo na sua frente, você nunca mais esquece, é completamente diferente de ver esse atropelamento na televisão, com o teatro é a mesma coisa.

O que o teatro tem a dizer às novas gerações?
Eu acho que o teatro sempre trabalha com o pensamento, com a reflexão. Os textos, sejam eles clássicos, antigos ou contemporâneos, eles sempre estarão falando do ser humano, da gente, do homem, então através do teatro conseguimos refletir, repensar sobre nós mesmo. Às vezes o teatro consegue tocar em pontos que estão adormecidos, nos quais não queremos pensar a respeito, quase como uma terapia. Você consegue ver textos que tocam as pessoas de uma forma, que talvez se não houvessem ido assistir aquela peça não sentiriam aquela emoção, não pensariam naquilo. O Teatro tem essa função de despertar emoções que estão adormecidas.

Como o teatro pode desenvolver o senso crítico do público?
O teatro desenvolve o senso crítico por meio da reflexão que propõe. O que um espetáculo sobre futebol deseja despertar nos espectadores? Este texto usa o futebol, a loteria esportiva, como um pretexto para falar sobre valores, de moral, de ética, até onde você vai para conseguir o que quer, se realmente vale a pena jogar sujo ou não. Então utilizamos isso para propor essa reflexão neste ano de eleição, porque depois que os políticos assumiriam seus cargos, não tem mais jeito. Vamos pensar direitinho para ver quem colocaremos para comandar este país e a nossa vida, porque querendo ou não, ficamos nas mãos deles.

Como é para você atuar em um projeto idealizado por seus pais?
É muito prazeroso. Eu estou envolvido desde o começo, há dez anos que eu faço parte intensa do projeto, seja atuando, coordenando, dirigindo. Ao mesmo tempo é muito difícil ficar tanto tempo com um projeto cultural nesse país não é fácil não, é uma batalha, é um orgulho. É sempre um desafio, porque nunca sabemos se no próximo semestre conseguiremos realiza-los, mas isso que faz da nossa profissão tão gostosa.

Que papel a cultura desempenha em sua vida?
Na minha vida a cultura desempenha um papel muito intenso, é tudo. Eu sempre vivi com a arte junto comigo, me ajuda muito na maneira de enxergar o mundo, de ver o homem, através da arte e isso me levou a desenvolver meu trabalho como ator. Através das artes eu consigo entender melhor a nossa dinâmica, a humanidade e tentar compartilhar, levar o que eu acredito que seja correto a ser feito. A minha ferramenta de luta, de batalha, é arte, no meu caso, o teatro, as artes cênicas.

O que dizer àqueles que desejam trabalhar com arte e cultura no Brasil?
Não é fácil, é difícil, mas também é como em qualquer outra área, tem seus desafios. Infelizmente em nosso país a cultura não tem o valor e a posição que deveria ter, então se você quer realmente trabalhar com isso seja resistente, não desista, porque os “nãos” serão bem maiores que os “sims”. Nós temos que aprender a cair e levantar, e cada vez que caímos levantaremos mais fortes, então é necessário ter resistência e estudar, manter-se sempre atualizado, um ser pensante, porque bem ou mal somos formadores de opinião. Temos que ter consciência da nossa função na sociedade, não pense que o ator é só glória e celebridade, não, pelo contrário, é muita luta, muita batalha, mas também é muito prazeroso e gostoso, principalmente quando você sente que atingiu uma pessoa, fez ela rir, chorar, mexer com os sentimento é muito gratificante, vale a pena.