Das ruas às galerias

Por: Julia Parpulov

O artista plástico e grafiteiro paulistano Marcus Vinícius, o Enivo, fala dos desafios da arte urbana

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Edição nº 1 – 2014

Enivo em sua casa | Crédito: Julia Parpulov

Enivo em sua casa | Crédito: Julia Parpulov

Em sua casa iluminada e ampla, bem ao lado do Parque da Aclimação, o artista plástico e grafiteiro Marcus Vinícius, o Enivo, concedeu esta entrevista sobre sua trajetória artística e suas opiniões. Nascido no extremo sul de São Paulo, no Grajaú, e hoje com 28 anos de idade, ele acumula 16 de experiência em arte urbana. Já participou de exposições, pintou dentro e fora do Brasil, faz parte do Coletivo 132 e hoje é um dos sócios da galeria A7MA, voltada ao desenvolvimento de práticas artísticas somado a educação e a manifestações culturais.

Como o graffiti surgiu na sua vida? Você começou pela arte em si ou pela transgressão?
Pela transgressão, talvez. Comecei escrevendo meu nome (Vinícius). Desde criança, sempre gostei de desenhar e no final de 1998, eu tinha 12 anos de idade, era uma criança praticamente, comprei umas latinhas de spray e fiz um graffiti perto da minha casa, depois na rua de trás, no bairro ao lado e aí entrou na minha vida, virou um vício mesmo, até que minha mãe teve que controlar durante uma época e me proibir de pintar. Eu escondia minhas tintas nas casas dos amigos e saía de manhã, falava que ia brincar na rua de baixo e sumia, ia para a Zona Leste, para o Cambuci, Vila Madalena sozinho, perdido, pintando meu nome pelas ruas.

Quem eram os grafiteiros que o inspiravam no início? Quem você admira hoje?
No início, quem muito me inspirou, lógico, foram meus amigos do bairro: o Niggaz (falecido em 2003) e o Jerry. Mas eu via algumas coisas, tinha algumas revistas do gênero, então havia muita influência dos Gêmeos, Speto, Herbert Baglioni, Vitché, Nina, Binho, Tinho, toda essa primeira geração do graffiti. Hoje têm muitos, principalmente os amigos que andam comigo, que venho percebendo uma grande evolução como o Paulo Ito, que é um cara que aborda muitas ideias, tem um grande talento em desenho e pintura, então para mim é muito fera. Observo muito meus amigos que estão em atividade nas ruas mesmo, o Slicks, o Mauro, o Risada, o Mudo, uma galera que está fazendo bastante na cidade, com estilo e originalidade. É o que eu ando observando, são meus dias, as pessoas que continuam fazendo mesmo. A pichação me influencia também, eu gosto muito. A vida em geral me inspira.

Quando você começou a pintar telas?
Comecei a pintar tela na época da faculdade (Artes Visuais), em 2007. A primeira foi em 2003, 2004, fazia mas não era tão constante, sempre foi mais na rua mesmo. Em 2007 peguei gosto, fiz minhas primeiras exposições e engrenei.

Quando decidiu que era isso que faria da vida?
De criança, quando eu peguei as latas de spray pela primeira vez. Com 12 anos de idade eu sabia que eu queria fazer isso para sempre. Foi amor mesmo, paixão na verdade e aí se transformou em amor com o tempo.

Qual a diferença entre pintar na rua e pintar um quadro/parede de galeria?
Em casa, no ateliê, numa galeria, num ambiente institucional você tem um bom tempo para ficar olhando para obra, para sentir, você escolhe a música que quer ouvir, quer parar para comer, parar para tirar um cochilo, tem toda a liberdade de reflexão durante o trabalho. Na rua não é bem assim, depende muito das condições climáticas: se chove, se escurece. Você sabe que se a nuvem fechou, a noite chegou, tem que acelerar para concluir ou para que fique menos trabalho para o outro dia se você está fazendo uma obra muito grande na rua. Mas eu gosto muito de fazer os graffitis rápidos mesmo, os bombs, os sem autorização, que é o que me motiva, me inspira, dá adrenalina de ter que fazer bem rápido, então tenho que chegar e fazer o desenho que eu já sei e gosto de fazer.

Na rua, 2013 | Crédito: Julia Parpulov

Na rua, 2013 | Crédito: Julia Parpulov

O fato de fazer galeria gera preconceito pelos que só pintam nas ruas?
Não, acho que não tem esse preconceito. Tem gente para criticar tudo, gente contra e a favor de tudo. Acho que vários artistas seguem outros caminhos e eu estou no caminho da arte, sempre estive e o graffiti é uma ferramenta que eu uso para expressar minha necessidade artística também. O diferencial é que criamos a nossa galeria (A7MA), então acho que preconceito, falar mal é para alguém que está desinformado, alguém que não sabe a nossa história, de onde a gente vem, não sabe dos tombos que já tomamos, as dificuldades que já passamos e que hoje temos uma galeria de arte que ainda está no começo, mas acreditamos no grande potencial que ela tem. É o pré-conceito mesmo, de quem não conhece.

Você acha que a arte urbana está deixando de ser mal vista pela população?
Sim, acho que a arte urbana está num período de muita mutação, então a televisão, as grandes mídias, a Copa, todo mundo está apoiando, todo mundo está falando de graffiti, de street art, arte urbana para lá e para cá e isso aí traz sim uma mudança na concepção de muitas pessoas, principalmente as mais velhas, que ainda não conhecem de fato, não entendem ou não acompanharam essa transição de arte na cidade.

Seu estilo variou e varia muito no decorrer dos anos. Em algumas pinturas é possível identificar traços de Van Gogh, Tarsila do Amaral e Picasso. Você busca inspiração na arte clássica?
Eu busco, sou estudante, gosto muito de pesquisar, estudar, já fui professor durante dez anos então, são referências, influências, acho que tudo que a gente vê, estuda, aprende é influência para a gente fazer o nosso, fazer nossa história. Cada fase é uma fase e eu procuro respeitar os meus momentos mesmo com tanta mudança, pelo menos na estética do meu trabalho. A poesia já é dita mesmo, sempre mostrada na pintura, a sensibilidade, o sentimento do momento, mas a estética sempre muda bastante.

Você ainda faz a assinatura TEMPO? Fale um pouco sobre ela.
Hoje, na verdade, eu quase não faço. Estou fazendo mais desenhos, mas assino como Enivo. TEMPO foi um período que começou com a minha primeira exposição individual que se chamou TEMPO NOVO. Eu fiz uma linha do tempo, que saía lá do Grajaú, que é meu bairro de origem, até Pinheiros, que é onde ficava a galeria da minha primeira exposição. Em uma semana fui marcando a cidade com cerca de 40 graffitis por esse percurso e cheguei à galeria sujo, com a mesma roupa, sem tomar banho, foi uma performance praticamente. Eu tinha os cabelos bem longos e meus pais cortaram na hora, por isso foi chamado de TEMPO NOVO, de renovar, de começar uma nova história. A partir daí comecei a escrever TEMPO durante uns dois, três anos fiz bastante na cidade e depois o TEMPO cessou, deu vontade de descobrir outros caminhos e aí deixei fazer. Às vezes eu faço, mas não tanto quanto antes.

Tempo Novo, em sua trajetória nas ruas | Crédito: Brancusi

Tempo Novo, em sua trajetória nas ruas | Crédito: Brancusi

Fale um pouco sobre o projeto IN-Cômodo e o Coletivo 132.
Hoje a gente fala da A7MA, mas quem deu origem mesmo à galeria foi o Coletivo 132, com as ações que a gente fazia na casa (Rua Nilo, 132 – Aclimação). Esse coletivo já existia porque alguns artistas já moravam lá, mas a partir do segundo semestre de 2008 cheguei para dividir o ateliê, eu e o Jerry, junto com o pessoal: o Tché, o Vítor, o Slicks morou lá um tempo. Então, cheguei lá para somar e em poucos meses essa casa virou um museu. Tinham centenas de obras espalhadas por ela, pelas paredes e muitos graffitis na rua, na vizinhança. Isso gerou curiosidade, então recebemos muitas visitas da mídia, jornais, emissoras de TV e diretores de museus para saber o que estes jovens estavam fazendo. Em 2011, vítimas da especulação imobiliária, pediram nossa casa e a gente teve que entregar. Permanecemos por lá mais seis meses, após o aviso e os outros vizinhos já terem saído. Por a gente estar fazendo arte nos deixaram ficar mais um pouco e como ela ia ser destruída, a gente fez o IN.Cômodo, que é uma dualidade de estar incomodado com o barulho das escavadeiras, da demolição das casas ao lado e do in, de dentro do cômodo, então cada artista dominou um cômodo e ficou vários dias produzindo lá dentro e a exposição se dava por isso. As pessoas entravam nessa casa 132, fizemos buracos que saíam nas outras casas, os artistas foram tomando conta e tudo isso foi abaixo depois. Isso tudo deu origem à A7MA, que é a galeria que hoje fica na Vila Madalena.

IN-Cômodo | Crédito: Enivo

IN-Cômodo | Crédito: Enivo

“As famílias já foram embora, a antiga pensão está no chão, a igreja está sendo engolida por uma máquina-escorpião que destroça tudo em pouco tempo. Belos desenhos se transformam em entulho colorido.” – Trecho retirado do álbum IN-Cômodo, no Flickr do Enivo.

E os trabalhos comerciais, como da temakeria YOI!? “Pagando bem que mal tem” ou é preciso que você goste de onde sua obra estará exposta?
Eu sobrevivo disso hoje, então esses trabalhos, ainda mais do que as vendas de quadros, são o que me mantêm, como galerista, como artista. Então eu vejo se é uma boa proposta, se eu não vou fazer algo que me coloque numa situação vexatória. Eu quero trabalhar, gosto de trabalhar, a temakeria YOI! é uma rede que me abraçou, há cinco anos que trabalho com eles, já pintei cerca de 20 lojas, então é uma parceria que vai além do comercial, virou um círculo de amizades entres essas pessoas, os franqueadores das lojas. É também algo diferenciado no mercado, de todas as outras temakerias, porque acabei criando a marca deles, que hoje usam além das paredes, nos menus, nos uniformes, eles abraçaram mesmo o meu estilo. Mas não vejo mal em fazer trabalhos para outras marcas. Pode ver agora na Copa, os artistas fazendo grandes trabalhos para a Coca-Cola, copos do Habib’s, campanha da Pepsi, pintando avião da seleção e por aí vai. Acho tudo isso fantástico, até onde os caras conseguem chegar? Tem que ir mais além mesmo, principalmente essa galera que está fazendo esses grandes trabalhos, pois estão abrindo um portal para nós. Tenho todo respeito por eles, está certo mesmo, tem que ganhar dinheiro, todo mundo ganha dinheiro!

França, Alemanha, Argentina, onde mais?
Todo lugar que fui pintei bastante. Além do Brasil fui ao Chile; Argentina agora; Amsterdam, na Holanda; Colônia, Berlim e Munique, na Alemanha; Salzburgo e Viena, na Áustria e Paris, na França. Para todos esses lugares levei minha arte, nossas cores e quis representar um pouco da nossa cultura.

Painel Stroke Art Fair, na Alemanha | Crédito: Christian Wehrle

Painel Stroke Art Fair, na Alemanha | Crédito: Christian Wehrle

Pincel ou spray, de qual gosta mais e quando usa cada um?
Eu gosto de tudo, porque até quando eu vou fazer graffiti gosto de usar o rolinho que lembra mais o traço do pincel do que o spray. Cada momento pede uma coisa: o spray é ágil, tem uma estética final diferente, então para uma coisa mais rápida, um trabalho de rua gosto mais; com o pincel gosto de fazer minhas telas, fico vários dias, tenho todo cuidado, vou viajar trago pincel diferente, levo para minha vó que pinta, então tem esse apreço, o tempo entra aí. Uma coisa é mais ágil, rápida, fast, a outra você vai, fica ali, dá uma pincelada, fica olhando. Mas eu tenho certeza que os trabalhos mais lindos são aqueles que usam de tudo: pincel, rolinho, spray, massa, põe tudo ali no meio e sempre pode sair uma coisa interessante.

Pintado, 2013 | Crédito: Julia Parpulov

Pintado, 2013 | Crédito: Julia Parpulov