Ouvindo os Smetakeanos: descontruindo para reconstruir

Por: Larissa Herrera e Cauê Rebouças, pesquisadores de Iniciação Científica da Cásper Líbero

Evento no SESC Vila Mariana reuniu os filhos de Smetak para um bate–papo com os fãs

Livio Trangtenber, Bárbara Smetak e Uibittu Smetak | Crédito: Larissa Herrera

Livio Trangtenber, Bárbara Smetak e Uibittu Smetak | Crédito: Larissa Herrera

O evento Baú do Smetak contou com a presença dos filhos do homenageado, Bárbara e Uibitu Smetak, que com a mediação de Livio Trangtenberg conversaram com os fãs e admiradores do trabalho de Walter Smetak. A palestra aconteceu no dia 12 de março, às 20h, no auditório do Sesc Vila Mariana, local no qual estão programados outros eventos, entre março e final de abril, que constituem o projeto Smetrack: Anos-Luz de Walter Smetak. O conjunto de eventos, de acordo com o curador Lívio Trangtenberg, busca trazer para o público a influência conceitual e criativa do músico suíço-baiano em diferentes autores, obras e instrumentos.

Walter Smetak nasceu em Zurique na Suíça em 1913, veio para o Brasil no ano de 1937, já formado como violoncelista pelo Mozarteum de Salzburgo, na Aústria. Após passar por São Paulo e Rio de Janeiro, fixou-se na Bahia, onde lecionou som e acústica na Universidade Federal da Bahia e tocou na Orquestra Sinfônica da mesma universidade. Além de músico, foi escritor, poeta, escultor e pintor.

Os filhos contaram a respeito da vida simples que levara seu pai que tinha apenas uma calça jeans e algumas poucas camisetas, mas possuía um xodó: uma moto BMW antiga. Alguns mitos foram derrubados sobre Walter, principalmente o que tange ele ser um homem totalmente libertário. Pelo contrário, era muito rígido no âmbito familiar, sendo que as meninas não podiam namorar e os meninos não podiam errar quando praticavam música, herança de sua educação patriarcal europeia. De modo similar, em sua profissão de educador coordenava de maneira rígida as experimentações, isto é, elas não eram totalmente livres. Nas palavras de seus filhos: “Em casa ele era muito europeu, duro. Nas aulas com seus alunos, menos, mas ainda era”.

Um dos pontos marcantes da conversa foi a marginalização que o músico ainda sofre dentro da história da música brasileira; mesmo com um grande e genial legado, ele é o “lado C” da música no Brasil. Há ainda cerca de 30 livros inéditos para serem publicados, entre poesia, filosofia, peças de dança e teatro, assim como inúmeras fitas com gravações de músicas e aulas experimentais. Bárbara, sua filha e principal coordenadora dos projetos do pai, contou que o material não está bem armazenado “Fica em um local quente, abafado, sem ar-condicionado, apenas com ventilador”.

A filha ainda enfatizou que o Estado precisa valorizar mais um homem que, além de ter sido inspiração e parceiro de Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foi um revolucionário no cenário musical, um verdadeiro vanguardista. Lutou para desconstruir a forma estrutural e metódica da música clássica, criando grupos experimentais com seus alunos. Estes, guiados pelo suíço-baiano, tocavam instrumentos coletivamente – alguns com dezenas de pessoas, como uma flauta feita de bambu com cerca de vinte metros, com vinte furos, para vinte pessoas diferentes tocarem ao mesmo tempo.

Os equipamentos musicais utilizados pelos alunos foram denominados de “plásticas sonoras”. Eram construídos a partir de pvc, cabaça, bambu, isopor e outros materiais de baixo custo que indicavam que Smetak queria “plantar seus instrumentos”. Ao longo de sua vida na Bahia, o músico construiu mais de 150 aparelhos. Ele acreditava que esses instrumentos deveriam ser tocados e apreciados por todos, leigos ou até profissionais. Buscava criar de forma que a música fosse popular e transcendente. Vários daqueles instrumentos foram conservados e podem ser encontrados na coleção fixa O Alquimista do Som – Coleção Walter Smetak no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, em Salvador, Bahia.

É impossível dissociar a obra de Smetak do mundo, como seu filho e violinista Uibitu lembra: “Acho que toda a obra dele está ligada com a Eubiose. É impossível entender Smatak sem entender a Eubiose, que é viver em perfeita harmonia com as leis universais.[…] É vivenciar um conjunto de conhecimentos, cujo objetivo primordial é congregar, construir e religar integralmente as dimensões do sagrado, profano, divino e humano”. Ou seja, Walter utilizava suas músicas e experimentações em grupo como forma de alcançar um estado alterado da mente, transcender e viver uma experiência que nos ensina sobre nós mesmos.

Walter Smetak foi um verdadeiro antropófago, misturou a música erudita com candomblé, esoterismo indiano e faixas microtonais (músicas realizadas por instrumentos em que a “primeira” e “última” cordas estão afinadas com apenas meio tom de diferença). A melodia soa aos nossos ouvidos, acostumados com as notas tonais e incessantes, como algo desafinado, rude e lento. Contudo, essa era a intenção do músico, que buscava por meio dessa alteração do confortável, causar reflexão e introspecção. A partir do tempo lento e perturbado, buscava uma aproximação com o espiritual do homem: descontruía a música para alcançar o som. E agora, atinge uma nova geração criativa, que busca em seus compassos e traços um ensinamento além do comum.


 

Serviço

SMETRACK! Anos-Luz de Walter Smetak
SESC Vila Mariana. Março e abril de 2015.

Para entender melhor

SCARASSATTI, Marco. Walter Smetak: o alquimista dos sons.
São Paulo: SESC/Perspectiva, 2008.