“A grande mudança na televisão foi provocada pelo telespectador”

Por: Flávio Melo

O jornalista José Armando Vannucci fala à revista Arruaça sobre o futuro da TV

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Edição nº 6 – 2016

José Armando Vannucci no programa Todo seu (TV Gazeta) Crédito: Youtube/Todo seu

Especialista em TV, José Armando Vannucci é um dos críticos mais respeitados do país. Ao longo de sua carreira, já atuou em diversos veículos de comunicação. No rádio, foi um dos apresentadores do programa Morning show, exibido pela Jovem Pan. Na internet, é autor do Blog do Vannucci, com tudo sobre o que acontece nos bastidores. Já na televisão, foi colunista do programa Todo seu, comandado por Ronnie Von (TV Gazeta). Há 16 anos é jurado do Troféu imprensa e tornou-se, desde 2014, membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Prestes a lançar seu livro, o jornalista concedeu entrevista à revista Arruaça.

ARRUAÇA – A falta de espaço na TV tem levado muitos artistas a migrarem para os canais pagos e criarem seus próprios canais no youtube. Você acredita no fim da TV aberta?
José Armando Vannucci – Não. Até hoje nenhum veículo substituiu outro. Quando a televisão surgiu, todos pensaram que o rádio iria acabar, porque a TV, com a imagem, tinha algo a mais para oferecer. Foi então que o rádio se reinventou e tornou-se o que é hoje, trocando as radionovelas e os grandes musicais por prestação de serviços. Com a TV não será diferente. Ela também irá se transformar, mas não deixará de existir. Em vez disso, teremos cada vez mais conteúdos como Verdades secretas, Justiça e Supermax, pois atendem a nova plateia.

ARRUAÇA – Como você vê essa nova geração de youtubers que comenta sobre televisão? São amadores ou aspirantes?
José Armando Vannucci – Nem amadores nem aspirantes. Eles ocupam um espaço importante, mas poucos funcionam fora da internet. Kéfera, a mais famosa entre eles, não tem um espaço na TV. Celso Portiolli, que atualmente faz sucesso em seu canal no youtube, mantém a mesma audiência do Domingo legal. Os youtubers falam para a nova geração, mas dificilmente substituirão os que estão na TV, pois cada um é eficiente na sua plataforma e o público precisa dos dois. Internet é internet. Televisão é televisão.

ARRUAÇA – Você está escrevendo um livro sobre a história da televisão brasileira, inaugurada em 1950. Para você, o que mudou nos últimos 66 anos? Como será o livro? Qual a previsão de lançamento?
José Armando Vannucci – Mudou a tecnologia. O jeito de fazer televisão. Daqui a 20 anos os novos telespectadores vão achar tosco o que hoje temos de melhor. A grande mudança na televisão foi provocada pelo telespectador. Se hoje a TV é mais informal, é porque somos informais. O público não quer mais assistir telejornais perfeitos, comandados por apresentadores perfeitos, pois sabe que todos eles são como nós. Sobre o livro, eu e o Flávio Ricco estamos terminando de escrever. Em janeiro fazemos a primeira revisão e até abril deve ser lançado. Era para ser uma biografia oficial, mas por falta de registros e tantos outros perdidos em incêndios, resolvemos fazer um livro reportagem. A história da TV não foi só feita pelo Chacrinha, pelo Assis Chateaubriand, pelo Silvio Santos ou pelo Boni. Ela também foi feita por pessoas que estiveram nos bastidores e que o público não conhece. Por isso, vai se chamar As histórias da história da televisão.

A telenovela é o principal produto da TV brasileira. Na sua opinião, qual o papel dela na sociedade? Ausência de boas histórias ou desinteresse do público, qual a principal razão na queda da audiência? Quais são seus autores favoritos?
José Armando Vannucci – Quando falamos em audiência, logo pensamos na Rede Globo, que produz novelas desde os anos 1970. Os tempos são outros. Se antes era comum registrar 50 pontos, hoje dificilmente chega-se aos 30. Primeiro, porque o ponto na pesquisa vale mais. Segundo, porque existe a concorrência. Mas a plateia ainda é grande. A novela, assim como a TV, vai se adaptar. Mas toda vez que se mexeu no formato, o resultado não foi o esperado. Babilônia não deu certo. A Regra do jogo só fez sucesso depois que introduziu histórias de amor, que é o folhetim. Além da novela, haverá minisséries, seriados, mas como no cinema, que a todo o momento reinventam a história de Romeu e Julieta, no final viverão felizes para sempre. É o que o ser humano quer. Os meus autores favoritos são Silvio de Abreu, Benedito Rui Barbosa, Thelma Guedes e Maria Adelaide Amaral. Tenho gostado também do Walcyr Carrasco, desde Verdades secretas à Chocolate com pimenta.

ARRUAÇA – As séries norte-americanas influenciam cada vez mais as nossas produções, como Revenge, que inspirou Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro. Somos menos criativos ou temos menos recursos?
José Armando Vannucci – É natural termos essa referência, pois a TV norte-americana, além de produzir mais, é mais amadurecida. Novos autores estão constantemente buscando inspirações, inclusive nos escritores brasileiros. Manuela Dias deve ter sido influenciada quando criou Justiça. Já com A regra do jogo a referência não funcionou. É preciso tomar cuidado, até porque o público é outro.

ARRUAÇA – Se você criasse o troféu José Armando Vannucci, para qual atração você daria o prêmio de melhor conteúdo da televisão brasileira? Por quê?
José Armando Vannucci – Eu daria para o quarto horário de dramaturgia da Rede Globo, que envolveu novelas, seriados e minisséries, como Justiça, Supermax e Liberdade, liberdade. O troféu é para esta ousadia em oferecer novos conteúdos, enquanto outras emissoras, com medo da crise, têm contado as mesmas histórias e produzido os mesmos formatos, receosas de perderem audiência e patrocinadores.