As fábricas de cultura e seu papel social

Por: Luís Augusto Sousa da Fonseca e Silva

Alexandre Gennari fala à Arruaça sobre o papel das Fábricas de Cultura na cidade.

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Edição nº 6 – 2016

Alexandre Gennari é escritor e roteirista. Nasceu em São Paulo, em 1963, e hoje vive na cidade histórica de São Luiz do Paraitinga, onde foi Diretor Municipal de Cultura. A seguir, ele fala à Arruaça sobre o papel das Fábricas de Cultura na cidade.

Aula ministrada na “Fábrica de Cultura do Governo do Estado de São Paulo. (Acervo pessoal)

Luis Augusto – O que são as Fábricas de Cultura e qual é o objetivo do projeto?
Alexandre Gennari – As Fábricas de Cultura fazem parte de um projeto do governo do Estado de São Paulo cujo objetivo é levar cultura à periferia da cidade de São Paulo, lugares como Capão Redondo, Jardim São Luiz, Brasilândia, Jaçanã, Vila Nova Cachoeirinha. As Fábricas são centros culturais modernos e bem equipados que contam com bibliotecas, atividades culturais, cursos, espetáculos, estúdios, teatros, etc. Todas as atividades das Fábricas são gratuitas.

Luís Augusto. – São Luiz é conhecida por suas diversas manifestações culturais. Qual é a importância destas manifestações no panorama cultural da própria cidade e do estado de São Paulo, em caráter mais amplo?
Alexandre Gennari – Primeiramente a manutenção de tradições que aos poucos vão se perdendo em outros lugares. O turismo move a economia da cidade e seu principal produto é a cultura, sobretudo a música. Mas há também manifestações culturais de raiz como a cavalhada, a congada, o brão etc.
No âmbito estadual, São Luiz aparece como uma reserva da cultura caipira que vai desaparecendo aos poucos no interior ou tomando outras formas como a música sertaneja universitária e suas corruptelas(1).

Dirigindo o documentário “Roupa de Baixo”filmado na Cidade Histórica de São Luiz de Paraitinga. (Acervo pessoal)

Luís Augusto – Como surgiu a iniciativa de inserir crônicas e contos nos ciclos de palestras?
Alexandre Gennari – As narrativas curtas, como crônicas e contos, favorecem a iniciação de leitores no hábito de ler, muito por causa da brevidade dos textos. A crônica especialmente, um gênero essencialmente brasileiro, usa uma linguagem coloquial, crítica, mas irônica e bem humorada também, bastante palatável para o brasileiro médio que, em geral, não tem o costume de ler.

Luís Augusto – Estas iniciativas despertam nas pessoas o hábito da leitura?
Alexandre Gennari – Sim, sobretudo em crianças e jovens em idade escolar, mais abertos para incorporar novos hábitos. Adultos em geral são mais resistentes.

Luís Augusto – Como você avalia estas atividades artísticas e como elas se inserem no panorama das políticas culturais públicas desenvolvidas no Brasil?
Alexandre Gennari – A cultura, assim como o esporte, é uma das melhores ferramentas para inclusão social e valorização do ser humano. Isso está comprovado. Há uma série de exemplos de projetos sociais voltados para jovens que usam a cultura como ferramenta e alcançam resultados surpreendentes, diminuição da violência e do uso de drogas, entre outros. Ao ensinar um jovem a tocar um instrumento, por exemplo, não se espera que ele se torne necessariamente um profissional, que ganhe a vida tocando, mas a possibilidade de expressão e a valorização das pessoas podem ser o suficiente para mudar diverasas histórias de vida.

Luís Augusto – Quais são os maiores desafios de um gestor de cultura no Brasil hoje?

Palestra realizada em uma escolar pública. (Acervo pessoal)

Alexandre Gennari – Lidar com políticos que não valorizam a cultura. Vide o exemplo recente da tentativa do governo federal de extinguir o Ministério da Cultura. Além disso, a deficiência do sistema educacional forma cidadãos menos propensos a consumir produtos culturais mais bem elaborados do que a música comercial, por exemplo. Isso determina que produtos artísticos, assim como manifestações culturais populares mais tradicionais, percam espaço na mídia.

Luís Augusto – Quais são os principais aliados e os principais inimigos da cultura popular e dos projetos culturais independentes, críticos, que estejam sendo feitos à margem da indústria cultural no Brasil hoje?
Alexandre Gennari – As leis de incentivo fiscal para a cultura precisam ser atualizadas, aprimoradas. Facultar a escolha de projetos às empresas, resulta no investimento em projetos predominantemente comerciais que evitem temas polêmicos ou impopulares. A dificuldade de captação de recursos para produtores independentes e alternativos junto às empresas é enorme, deixando-os à margem. De outro lado, prêmios e editais são, muitas vezes, viciados.
Alguns dos aliados são a fragmentação da informação possibilitada pela internet e a tecnologia disponível para mais pessoas.

Luís Augusto – O que é preciso ser feito para aumentar os níveis de leitura do cidadão brasileiro hoje?

Palestra realizada Itaú Cultural. (Acervo pessoal)

Alexandre Gennari – A questão não é só ler mais, é sobretudo ler bem. Esse é o grande desafio, para o qual não tenho resposta. Com todas as novas tecnologias, com a pressa do ser humano moderno e o execesso de informação, o espaço do livro, sobretudo da literatura, fica mais comprometido a cada dia.
Entretanto, para apontar um caminho possível, eu diria que a melhoria do sistema educacional brasileiro é fundamental.

Luís Augusto – O que o Brasil pode aprender com a cultura desenvolvida em São Luiz do Paraitinga?
Alexandre Gennari – Que a cultura é um caminho real para inclusão social e valorização do ser humano.