Deixo o meu abraço para quem fica, no meu testamento a cuíca, o pandeiro e o tamborim

Por: Isabella Mazotti Gossn

Osvaldinho da Cuíca fala da sua trajetória e da História do samba paulista.

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Edição nº 7 – 2018

Osvaldo Barro, mais conhecido como Osvaldinho da Cuíca, é um sambista paulistano, original do Bom Retiro. Nascido em São Paulo, em 1940, ele cresceu em meio a um samba que hoje já está extinto. Ao longo de sua carreira, foi parceiro dos mais renomados nomes do samba, além de diversos artistas internacionais de diferentes gêneros. Foi um dos fundadores da Ala dos Compositores da Vai-Vai, eleito o primeiro Cidadão Samba Paulistano (prêmio concedido pela União das Escolas de Samba Paulistanas aos sambistas que prestam os serviços mais significativos ao carnaval e à cultura popular de São Paulo) e membro do Demônios da Garoa. Em 2000, fundou o Cordão Carnavalesco Ziriguidum, que tinha como objetivo retomar o samba paulista tradicional, com repertório de antigas marchinhas de carnaval. Na entrevista a seguir, concedida à Arruaça, o sambista fala sobre seu relacionamento com o samba ao longo de sua vida, além de seus estudos sobre a história do gênero em São Paulo.

 

ARRUAÇA – Como surgiu seu interesse pelo samba?

Osvaldinho da Cuíca – Eu nasci em 12 de fevereiro de 1940, em pleno carnaval, já tocando uma cuíca. Sou descendente de italianos por parte de pai, e, por parte de mãe sou caboclo, do mato, mistura de índio com holandês, tudo que há de brasilidade. Quando tinha dois anos meus pais se separaram. Com muita dificuldade, acabei indo morar com a minha avó no mato, onde não tinha nem luz elétrica. No interior não havia tecnologia nenhuma nos anos 1940, então as diversões eram o folclore e as festas da zona rural. Todo tipo de festa religiosa, de várias vertentes do catolicismo ou afro, da cultura ameríndia, enfim, um pouco de cada. Minha avó também era cabocla e cantava sozinha, à noite, na beira da porta…era uma vida muito pura. Então, a musicalidade começou a germinar aí.

Quando eu vim para São Paulo, em 1948, vim morar com uma tia no Tucuruvi. Ela trabalhava vendendo fruta na rua e eu ia junto. Quando eu estava em casa, ficava na rua engraxando, vendendo bugiganga na feira…e nessa época, como engraxate, havia muita batucada. Ali comecei a desenvolver. Conheci os “bambambam” porque eu engraxava na porta de uma gafieira. Os sambistas frequentavam e eu engraxava os sapatos deles. Aí eu entrei para o mundo do samba. Eu era garoto, treinava muito e fabricava os próprios instrumentos – porque naquele tempo não existia ainda uma indústria desenvolvida – a gente fazia e tocava. E eu fui muito cedo para o rádio e me profissionalizei em 1957. Aí entrei para o teatro. Trabalhei muito em teatro folclórico. Então, a minha escola foi de agregação de valores, porque eu conheci muita gente, eu aprendi a ser autodidata com pessoas de grande relevância na história da música e da cultura brasileira. Não tinha recurso para estudar, mas por contra própria desenvolvi isso.

 

ARRUAÇA – De onde nasceu a ideia de escrever um livro sobre a história do samba paulista?

Osvaldinho da Cuíca – Eu tenho dois livros e participei de muitos outros, uma infinidade. Esse da história do samba paulista, começou porque em 2002 eu tive um câncer de garganta e não tinha esperança. Eu estava com 40 kg, não podia comer e houve um erro médico na cirurgia, mas eu continuei trabalhando, mais desesperado ainda. Foi a época que mais produzi na minha vida, porque sabia que tinha pouco tempo e tinha que produzir. Aí comecei a trabalhar, fazer filme, livro, enredo…não podia falar, mas fiz enredo. Trabalhei sem parar. Nessa fase eu estava no Sesc participando de um show de um dos grandes escritores do Rio de Janeiro, Haroldo Costa. Ele estava lançando um livro e eu ia fazer um show para ele. Não podia nem parar em pé, estava magrinho, mas continuava sambando. Sabia que ia morrer mesmo, então queria gastar meu último gás. Aí esse parceiro que escreveu o livro comigo, me viu e veio conversar. Ele falou “Você não tem vontade de fazer um livro, não?”. E começamos a fazer o livro. Foi assim que surgiu a ideia. Foi uma parceria que deu certo.

 

ARRUAÇA – Quais são as diferenças entre o impacto social do samba no passado e hoje em dia? Ele perdeu lugar para algum gênero?

Osvaldinho da Cuíca – Do impacto social? Essa foi uma pergunta boa. O de antigamente, da minha época – porque eu sou dos dinossauros, né. Da minha época já foi todo mundo embora, tem pouca gente. O samba não tinha o glamour que tem hoje em dia. Hoje o samba virou moda e virou instrumento de trabalho na mão de político, de manobra. Virou janelinha para artistas globais aparecerem nas escolas de samba. Na minha época eles tinham vergonha de dizer que eram de escola de samba. E só era do samba quem era sambista. Todo mundo era bom e quem não fosse não entrava. Tinha que ter vocação para compor, para tocar e respeito para entrar na roda. Esse samba de antigamente era autêntico. Hoje ele já não é mais. Hoje ele é cópia de cópia de cópia. E a sociedade abraçou e virou modismo.

A diferença também é que o samba de antigamente era feito pelo sambista, ninguém se atrevia a fazer. Compositor não se metia na ala de harmonia, ala de harmonia não se metia na bateria. Cada macaco no seu galho. Compositor era compositor. Hoje não. Hoje é o dinheiro que fala mais alto. Vem um empresário, vem não sei quem…então, o samba perdeu qualidade porque não é feito por compositor nato. Quem faz, geralmente, é a garotada ambiciosa, que quer ter o nome como compositor da escola de samba. E aí se esforça, fica dia e noite escrevendo, plagiando, pegando pedaço de samba de um, de outro…e o samba fica bonito. Essa é uma grande verdade. Antigamente se fazia com amor, sem dinheiro e com criatividade. Você era o artesão. Hoje não. Hoje tem dinheiro, muito dinheiro, tem tecnologia, computador, e os maiores profissionais de dança, de arte, de toda natureza ganham muito dinheiro com isso. Virou profissão.

 

ARRUAÇA – Por que o samba foi da vadiagem, nos anos 1940, ao mercado de hoje?

Osvaldinho da Cuíca – O mercado de carnaval é diferente do samba. Porque escola de samba não cumpre seu papel social mais. Algumas cumprem, mas a maioria é maquiagem, é lavagem de dinheiro. Essa é a real. Mas, antigamente, era chamado de vadiagem porque o samba não era oficializado. Em São Paulo foi oficializado em 1968. Hoje em dia o samba virou um produto comercial. E no passado não. Era feito por abnegados. E como naquela época não era oficializado o carnaval, não era oficializado o samba, ele era batuque. Batuque era coisa de senzala, porque batuque é uma palavra genérica que abrange o coco, o jongo, o maracatu…é muito abrangente. A capoeira era considerada vadiagem no código penal, era proibido. O samba foi enquadrado no mesmo artigo.

Na minha infância, eu cansei de dormir na delegacia de domingo. Um grupo ficava na esquina batucando, enchendo a cara de cachaça…aí, a gente pegava um ônibus, subiam 30, 40, 50 caras no ônibus com instrumento, batucando, bêbado, rasgando sua meia. Na volta, a gente vinha da cidade tudo bêbado, vomitava em cima dos outros. Eu estou contando o lado negativo porque o pessoal só conta o lado positivo e fica se vitimizando.  A gente fazia o samba em qualquer lugar e perturbava o silêncio. Chamavam a polícia. Não era organizado, não existia quadra, não existia local para desfile. Quando muito, as associações de bairro, clube de lojista, jornais faziam um concurso em um lugar. Então é bem diferente o quadro de ontem e de hoje. Era considerado vadiagem porque não era oficializado e era uma classe reprimida quando fazia coisas erradas. Eu cansei de ficar fazendo batucada na esquina e a vizinhança reclamava porque não tinha hora para acabar, nem para começar, aí vinha a cavalaria. Eles batiam com a espada nas costas da gente e a gente ficava entre dois cavalos. Quem era louco de correr, o cavalo corria atrás, ia para cima, né… Era assim. Mas depois, a mesma sociedade que, digamos, desqualificava a minha pessoa, depois da oficialização e dos teatros, eu já estava sendo consagrado. Então o mesmo samba me deu cidadania. O mesmo samba me deu passaporte para eu conhecer muitos países. Mas, eu sempre fiz samba sério, nada de comércio.

 

ARRUAÇA – Hoje em dia há interesse dos jovens pelo samba?

Osvaldinho da Cuíca – Tem, tem sim. Muito estudante, a juventude se interessa sim. Embora o samba hoje tenha caído na mão de político. É proibido, mas está na mão deles. É proibido porque toda entidade que recebe subvenção do Estado ou da prefeitura, não pode fazer propaganda política, mas está sendo usado para isso. Dominaram. O lado ruim dominou o samba.

 

ARRUAÇA – Nos últimos anos o carnaval de rua em São Paulo tem ganhado mais força. De onde ressurgiu a popularidade dos blocos? É possível que, a partir desse fenômeno, o samba de rua volte a ser popular?

Osvaldinho da Cuíca – Não, não tem volta. O processo de evolução impede esse tipo de coisa. Não tem volta, porque a volta seria voltar os cordões, mas eles foram extintos. O último foi em 1972. Acabou. É impossível. Porque é uma outra cultura. Eu tentei reativar, fundei o Cordão Carnavalesco Ziriguidum, mas eu não quis me filiar para receber subvenção de nenhuma entidade, porque não queria ficar submisso a certas coisas que eu não acho muito correto e que hoje eles impõem no samba. Aí, como eu não tinha dinheiro para manter esse cordão, tive que parar. Desfilei três anos no Anhembi, abrindo o carnaval. Foi um sucesso danado. O processo hoje é ir cada vez mais para frente. Tecnologia e dinheiro. Não tem volta. É avançar cada vez mais com tecnologia e ficar cada vez mais neurótico. Porque tem cada vez mais jovem nas baterias, e o jovem quer criar…não tem limites e acaba estragando uma bateria.

 

ARRUAÇA – Segundo seu livro Batuqueiros da Paulicéia, em 1914 o grupo carnavalesco Camisa Verde era considerado um “quilombo urbano de resistência cultural”. Hoje em dia o samba se distanciou dessa raiz de resistência cultural negra?

Osvaldinho da Cuíca – Sim. Com bastante certeza. O estatuto do Cordão da Barra Funda – porque não era escola de samba ainda – proibia a entrada de brancos. Está escrito no quinto artigo que é proibido. Foi uma das poucas agremiações, assim como a Vai-Vai, onde todos eram negros. Antigamente, havia poucos brancos, como eu por exemplo. Porque era meio pejorativo você fazer parte. E hoje, a sociedade branca tomou conta, abraçou a cultura. Felizmente, porque é uma forma de romper barreiras e preconceitos. Porque hoje está tudo agregado numa escola de samba, o maior número de alas é de brancos, na bateria o maior número é de negros, bastante jovens. Eu acho bem-vindo porque cada um contribui com a sua especialidade e a integração é fundamental…eu acho legal.

 

ARRUAÇA – Ainda é possível ouvir o samba paulista original?

Osvaldinho da Cuíca – Não. Em lugar nenhum. Você vê alguns fragmentos no interior que conservam o folclore, mas já nos anos 1930 Mário de Andrade se lamentou dizendo que a influência branca poluía um pouco e destoava. E eu observei ao longo da minha vida também. Eu vi jongo aqui sendo tocado com tumbadora e não pode, é um sacrilégio. Eu vi instrumentos com pele de nylon…não pode! O couro é sagrado. Tem que benzer com cachaça no fogo, tem que rezar e não pode pôr de cabeça para baixo. Ninguém conhece mais isso, ninguém respeita mais. Então se perdeu a tradição e estão sendo perdidos os fundamentos, as origens, a essência. A religiosidade está acabando. Isso é ruim, a gente não pode perder os valores, tem que respeitar as tradições.

 

ARRUAÇA – Então esses sambas regionais morreram quando o samba se oficializou?

Osvaldinho da Cuíca – Não. Um grande passo para exterminar o samba paulista foi acabar com os cordões, mas o samba de São Paulo não é só de cordões. Os cordões operavam nos carnavais. Acontece que o samba paulista tem uma influência forte, pouca gente sabe, da umbanda. Já o candomblé é que influenciou o samba do Rio de Janeiro. O samba de São Paulo tem uma diferença por causa da religiosidade que o negro abraçou do jesuíta. A prova é que toda manifestação de batucada tem estandarte, que é dos jesuítas. É a imposição da cultura deles. O carnaval não tem muita influência no samba em si. A questão regional é o ano todo, é a cultura que se desenvolve em cada lugar. A diversidade cultural que tem relação com o samba é religiosa. Das festas de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, enfim toda festa de negro e festa de branco, também. A influência rural é uma mescla dessa cultura toda. O samba de São Paulo era bem diferenciado do Rio na sua formação, nos seus princípios…o princípio religioso é um. O samba do Rio tinha suas batidas de acordo com o santo. Toda escola de samba tem o seu santo protetor. A maioria é São Jorge, Ogum. Mas, muitas escolas faziam a batida na caixa. O que diferenciava era a caixa e, às vezes o surdo. A Mangueira até hoje só tem uma batida. Então era característico de cada escola, uma homenagem ao seu santo. Hoje não existe isso. Hoje faz porque é uma impressão digital. Extirpou a religiosidade. Acabou.

 

ARRUAÇA – O que o público pode esperar do artista Osvaldinho da Cuíca nos próximos meses?

Osvaldinho da Cuíca – Ai, eu estou acabado. Estou com idade, parei de tocar. Há três anos fiz a minha despedida. Agora me resta pouco. O pouco que eu tenho é a sabedoria, componho ainda, mas tenho um pouco de preguiça, né? Fiquei agora esse tempo todo namorando, parei de compor por seis meses, fiquei quieto. Então, não tenho vontade…todo mundo cansa. Os compositores do passado pararam de compor também. Chega um tempo que você muda. Eu quero mostrar meus trabalhos de composição. Tenho vários cadernos cheios. Isso aqui eu fiz em pouco tempo [Osvaldinho mostra um caderno para a repórter]. Estava muito doente, não podia andar nem falar, então quase todo dia eu compunha. Eu compunha porque eu não podia fazer nada, então me deu desespero, falei “Tô morrendo”, então fiz várias músicas para a minha morte.

 

ARRUAÇA – E o senhor gravou essas músicas?

Osvaldinho da Cuíca – Não, estou querendo gravar agora. Essa aqui fiz para minha morte também [ele aponta para uma página no caderno]. É tudo meio poético. Olha, eu digo aqui “Quando eu tomar a saideira não quero que ninguém chore por mim. Deixo o meu abraço para quem fica, no meu testamento a cuíca, o pandeiro e o meu tamborim. Deixo também meu pedido em forma de samba, eu quero é samba no dia do meu gurufim. Em Santo Amaro quando a vela acender não vai querer se apagar porque no mundo do samba despede-se de um bamba cantando para homenagear. É a tradição africana onde a gente se irmana na paz de Olorum e Oxalá. E vai ter samba na igreja Achiropita e vai ter samba na Câmara Municipal. Lá no Bexiga o couro come sem censura, porque é da saracura a minha coroa real.”