Poesia feminista, feminina e monstra

Por: Helena Trevisan

No Slam das Minas – SP, mulheres se impõem por meio de versos e palavras para criticar, denunciar e contar suas histórias.

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Edição nº 7 – 2018

No tradicional bairro do Bixiga, no local que já abrigou uma igreja e depois o badalado Clube Glória está localizado o espaço cultural Mundo Pensante. A casa sediou, em uma tarde de domingo do último mês de outubro, a final da batalha de poesia do Slam das Minas – SP, um coletivo de slam exclusivamente feminino.

Slam é uma competição de poesia, na qual poetas declamam textos de sua autoria em, no máximo, três minutos, e preparado previamente. Diferente do sarau, no slam os autores são avaliados e recebem notas de um júri, que é escolhido na hora da competição entre o público presente. Em relação a batalhas de rap, na qual o foco é a rima improvisada, no slam é proibido qualquer acompanhamento musical, assim como cenários ou figurinos.

Em 2009, Roberta Estrela D’Alva, apresentadora do programa “Manos e Minas”, trouxe dos Estados Unidos esse tipo de batalha poética para o Brasil. Desde então, são formados coletivos em vários estados e hoje existem mais de 80 espalhados pelo país. Há uma competição em nível nacional, o Slam BR, em que finalistas de coletivos de diferentes estados competem por uma vaga na final mundial na França, a Slam Nation et Coupe Du Monde.

Por aqui, a poesia slam tomou cunho de literatura marginal. Grande parte de seus textos retratam vivências de, principalmente, jovens da periferia. “A principal importância do slam é nós contarmos nossas histórias em primeira pessoa, nosso protagonismo. Ninguém tá contando elas pela gente. Talvez pela primeira vez, nossas vozes estejam sendo escutadas. Os homens também fazem, no slam, poesia de militância, de resistência, mas ninguém está contando essa história por nós. Então eu vou lá, me aproprio do meu texto, aquela vivência é minha, narrada por mim mesma. Isso é empoderador, né? Dá identidade pro indivíduo. Faz lembrar que ele existe. É muito importante”, afirma Mariana Felix, participante da final daquela noite.

Por volta das quatro horas da tarde, ao som de músicas brasileiras que passeavam, em sua maioria, pelo funk, hip-hop e rap, começam a chegar pessoas de todos os estilos, raças, idades, gêneros e classes sociais. Algumas aproveitavam a música na pista, onde seria realizada a batalha, e outras – principalmente as garotas que iriam competir naquela noite – esperavam, no terraço, o começo do evento. Essas garotas encontraram no coletivo Slam das Minas um espaço de expressão, contando suas experiências e lutas. “O primeiro slam de que eu participei foi o Slam das Minas. Acredito que, se não tivesse sido o primeiro, eu, talvez, não estivesse competindo hoje. Foi um rolê em que eu me senti muito acolhida”, diz Victória Sales, slammer, que declara escrever poemas de amor lésbico e se sentir pouco à vontade em declamá-los em coletivos mistos, salvo exceções.

Apesar de ter sido trazido para cá por uma mulher, o slam ainda é dominado por homens. Só em 2016, uma mulher ganhou pela primeira vez o Slam BR. Luz Ribeiro pôde representar o Brasil na final e, talvez, essa vitória só tenha sido possível graças ao surgimento do coletivo que ela própria ajudou a criar. “O Slam das Minas surge, a princípio, para que uma vaga do Slam BR, obrigatoriamente, fosse ocupada por uma mulher”, declara Luz.

A história do coletivo Slam das Minas começou no Distrito Federal, idealizado pelas poetisas Val Matos e Tatiana Nascimento. Para disseminar a voz feminina na batalha, Luz, juntamente com Carolina Peixoto, Mel Duarte e Pam Araújo, trouxe o movimento para São Paulo e, a fim de fortalecer o nome deste, somente adicionou “SP” ao título.

Em seus eventos, além da competição, as meninas do coletivo também promovem pocket shows e palestras sobre assuntos diversos, como saúde mental. Apesar de o microfone ser aberto somente às mulheres, homens também são convidados a assistir e mães são incentivadas a comparecer e levar suas “crixs”. “Partimos do conceito de que o feminismo é pluralidade do feminino. As mães são essenciais nesses rolês e temos que acolher as crianças. As mães falam muito da solidão da maternidade. Então, cabe a estes espaços propiciar o acolhimento delas e de suas crianças”, afirma Luz.

Além disso, elas abrem espaço para algumas mulheres venderem seus produtos, como bijuterias ou roupas, e há venda de livros e camisetas na loja do próprio coletivo, sob a responsabilidade de Selma Amaro e Heloísa Fos. Atos de machismo e preconceitos de qualquer tipo não são tolerados.

Uma intervenção teatral, apresentada pelo Núcleo Pele, antes das introduções das organizadoras – as slammasters –, deixa o público presente preparado para o início da batalha. Pamela e Mel se encarregam de anunciar as competidoras ao palco, enquanto Luz cuida das músicas tocadas nos intervalos – todas de autoria ou interpretações femininas – e Carolina fica responsável pela apuração das notas. Depois dos agradecimentos e da escolha das juradas, a competição começa.

Deusa Poetisa, Mari Felix, Victória Sales, JadeQuebra, Thata Alves, Jéssica Campos, Ryane Leão, Kimani, Ádrian Neves, Tawane Theodoro, Mana Bolívia e Ingrid Martins são as finalistas – ou monstras, como descritas pelo coletivo. Cada uma tem seu nome anunciado e, como já são conhecidas pelo público presente, todas são ovacionadas quando sobem ao palco. Com a slammer pronta, é hora da declamação, mas não sem antes todos na casa bradarem o grito de guerra do coletivo: “Slam das Minas. Monas. Monstras!”, puxado pelas organizadoras.

Assim que a poetisa começa a falar, o silêncio domina o espaço. Algumas usam de suas vozes guturais. Outras, além da voz, usam o corpo para interpretar seus poemas. E todas, gradualmente, soltam algum verso que quebra a mudez da casa com gritos e aplausos por parte do público.

Os temas dos poemas variam muito. A maioria trata do feminismo, mas não exclusivamente. Estupro, abuso psicológico, liberdade sexual, violência doméstica, gênero, objetificação da mulher e sexualização da mulher negra estão entre os assuntos abordados pelas competidoras, assim como a violência contra o jovem negro, a política e a religião.

No final da declamação, as juradas são incumbidas de avaliar a apresentação. A cada nota 10, o público vibra, mas, quando a avaliação fica abaixo disso, o público reage com um uníssono “credo!”.

Conforme a competição vai avançando, o número de meninas da próxima chave diminui. A final foi composta por quatro delas e definiu as ganhadoras da noite: Mari em terceiro lugar, Thata em segundo e a grande campeã, Ingrid. Cada uma delas recebeu um troféu sob a forma de uma vagina de bronze, prata e ouro, feitos pela artista Thamy Cabral. O formato do troféu, além de representar as vencedoras, pretende ressignificar e desmistificar o órgão sexual feminino, retirando dele as inúmeras cargas de preconceito adquiridas ao longo da história.

A batalha é concluída com um pocket show de Anna Tréa, que sela o forte clima de solidariedade que exala do encontro. “A importância de ter eventos como esse é a representatividade. Ver pessoas como eu, Luz Ribeiro, Mel Duarte, que são mulheres negras, que conseguem ter um discurso, elas têm o que falar. As mulheres acabam se aproximando por isso. É uma questão de identificação e representatividade, principal, e primordialmente, pra mulher negra que tá na periferia e consegue ter acesso a esses trabalhos pela internet e acaba chegando a eventos como esse. Ou quando vamos pras quebradas, em escolas e pras meninas dessas escolas. O bom pra mulher é que ela consegue se ver”, diz Deusa Poetisa, finalista da noite.

Mundo afora, a poesia slam convida aqueles que têm suas vozes caladas a falarem de seus medos, frustrações, alegrias e conquistas. “A gente recupera o nosso lugar de fala através do slam”, declara Luz. No Slam das Minas – SP, as mulheres brasileiras estão aos poucos assumindo o protagonismo, mostrando que elas têm o que dizer, o que denunciar. E que não ficarão caladas.