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Danilo Carvalho_O Ano em que o Sol Morreu

Danilo Carvalho, aluno de RTVI e diretor do curta-metragem

 
Danilo “Daney” Carvalho (22) é aluno do 3º ano do curso de Rádio, TV e Internet da Faculdade Cásper Líbero e monitor na produtora experimental de RTVI, a Clact Zoom. No dia 28 de abril, um evento no Teatro Cásper Líbero marcará a estreia de O Ano em que o Sol Morreu, primeiro curta-metragem autoral dirigido pelo Casperiano. Além da exibição do filme, essa premiere contará com um debate sobre a obra, envolvendo o aluno-diretor, professores da Faculdade e convidados externos.

O Ano em que o Sol Morreu conta a história de Lisbella, jovem estudante de filosofia que atravessa um momento crítico de sua vida. Após um ano se ressentindo com erros do passado, Lisbella começa a ter visões da morte do Sol. Em volta de sua própria decadência, cabe à moça mudar o rumo de sua vida…ou contemplar a própria destruição.

Na entrevista a seguir, Danilo fala sobre suas inspirações como artista e conta como foi trabalhar no roteiro, direção e produção do curta-metragem influenciado pelo heavy metal e pela filosofia de Nietzsche.

 

André Dominguez – O Ano em que o Sol Morreu é o seu primeiro trabalho com cinema?
Danilo Carvalho – O Ano em que o Sol Morreu é meu primeiro trabalho autoral e é o meu primeiro filme voltado para o circuito de festivais. Mas não é o meu primeiro trabalho com cinema. Meu primeiro filme foi um curta-metragem experimental de três minutos e meio chamado Poesia São Paulo, que surgiu em 2014 a partir de amizades que eu fiz em um curso na Academia Internacional de Cinema de São Paulo. Durante esse curso, eu conheci duas pessoas que se tornaram grandes amigos e que foram bastante decisivos para o início da minha carreira, o Leonardo Tavares e o ator Sandro Guerra. Essa foi a primeira vez que, de fato, eu tive oportunidade de dirigir, de ter uma experiência de set. Outros trabalhos com cinema foram curta-metragem )entre(, da Noite de Kino organizada pela Associação Cultural Kinoforum, e um mockumentary – um falso documentário – sobre a relação de um homem com uma cadeira, feito para um trabalho acadêmico da Cásper Líbero para a disciplina dos professores Ninho Moraes e Dirceu Lemos.

 

Poster Minimalista_O Ano em que o Sol Morreu

Pôster minimalista do filme

AD – Em suas palavras, o que é O Ano em que o Sol Morreu?

DC – O Ano em que o Sol Morreu é um aforismo. Muita gente fala que o longa-metragem está para o livro, assim como o curta-metragem está para um conto. Eu não acho isso. Eu acho que em seus 15 minutos de duração – que é o tempo médio de um curta –, O Ano em que o Sol Morreu é mais conciso ainda. E, para mim, isso está muito ligado com a filosofia do Nietzsche, um escritor que dominou a técnica de escrever aforismos e cuja ambição era escrever em dez frases o que ninguém é capaz de dizer em um livro. E essa também é a minha ambição no filme: conseguir dizer em 15 minutos com sons e imagens o que não vejo ser falado em 120 minutos, em um longa-metragem. Então, O Ano em que o Sol Morreu é um curta-metragem de ficção e um aforismo que fala sobre ressentimento e que também está voltado para o supratexto, ou seja, é um filme que está voltado para a própria temática que aborda.

 
AD – No curta você divide as tarefas de diretor, roteirista e produtor. Como é ocupar essas diferentes funções?
DC – Essa característica de ocupar várias funções em um filme é fruto do tipo de cinema que eu faço, que é um cinema feito com recursos escassos. Eu recebo os créditos de produtor devido às regras de direitos autorais da Agência Nacional de Cinema (Ancine), mas eu não produzi o filme sozinho. Contei com a ajuda de três produtores executivos: o Horário Ramalho, o Marcellus Fonseca e a Camilla Napolitano, que são todos Casperianos. O trabalho de produtor é extremamente diferente do trabalho de diretor e atrapalha um pouco quando você é produtor e diretor de um filme ao mesmo tempo. Porque sendo apenas o diretor, você consegue ficar calmo e só pensar na construção da narrativa visual da obra. Mas, ao mesmo tempo, fica muito difícil fazer algo que seja seu, que seja autoral, sem ser também o produtor do filme. Agora, ser diretor e roteirista ao mesmo tempo é uma facilidade, porque você pode ficar um pouco mais desapegado do texto caso algo mude no meio do caminho. Você tem mais liberdade, já que a história é sua. Essa é uma experiência muito boa.

 
AD – O título O Ano em que o Sol Morreu é uma referência ao álbum da banda de heavy metal “Sanctuary”. O filme é uma versão cinematográfica desse álbum?
DC – De longe, não. O filme é dedicado ao Warrel Dane [o vocalista da banda], pois ele é um cantor conhecido por compor músicas de cunho filosófico. E o título do álbum, “The Year the Sun Died”, é muito bom. Se não fosse esse álbum, se não fosse o Warrel Dane, a ideia para fazer o filme não existiria. Então, a escolha do título do curta-metragem não é exatamente uma tradução literal nem tem a ver com o que se fala no álbum. É muito mais uma homenagem a alguém muito importante para o meu início de carreira, para as minhas reflexões e eu não escondi de onde veio a minha inspiração.

 
AD – O curta também faz referências às obras de Nietzsche e tem um forte apelo filosófico.
DC – Essa não é uma questão fácil. Existem muitas maneiras de se fazer cinema e eu acho que está em alta no Brasil, é uma característica do cinema nacional, o cinema de cunho social, que fala sobre as questões pautadas pelos movimentos sociais. Os últimos grandes sucessos tiveram esse apelo, seja abordando questões da violência urbana, de gênero ou do papel da mulher. E, apesar de eu gostar desses filmes, eu não gosto de me apropriar de assuntos dos quais não sei falar. Para mim é difícil tratar de violência urbana se eu nunca morei na favela; para mim é difícil falar sobre questões que o feminismo aborda se eu não sou mulher. Não quero me apropriar de um discurso que não é meu; não quero me colocar em lugares nos quais eu não pertenço. Eu prefiro, em cinema, falar de coisas que eu sei. E eu sei falar de filosofia, porque eu gosto de estudar filosofia. E acredito ser possível falar de filosofia através de sons, imagens e forças dramáticas. Já a questão do Nietzsche, é porque eu leio muitas de suas obras, tenho muita afinidade com os textos. Ele é um filósofo que aborda questões fundamentais da vida, do que é ser humano e, principalmente, do que é não ser humano. Esses são aspectos que sempre estarão na minha carreira como artista.

 
AD – O Ano em que o Sol Morreu conta a história da Lisbella, uma estudante universitária de filosofia, que vive uma crise existencial. Esse filme pode ser considerado um estudo de personagem?
DC – O filme não segue a fórmula clássica da jornada do herói. Sendo um aforismo, O Ano em que o Sol Morreu faz um recorte de um determinado momento da vida da Lisbella. Acho que o cerne do curta é que, como ele segue a filosofia de Nietzsche, eu não sou didático. Pelo contrário, eu convido o espectador a assistir ao filme, que é uma narrativa não-linear, e a partir da observação, do olhar, montar a trajetória da personagem. O filme, na verdade, convida o público a construir essa trajetória a cada cena. É um estudo de personagem? De certa forma, sim. Mas a personagem não serve apenas para justificar toda a temática da narrativa. Porque a Lisbella não somente reflete a filosofia do Nietzsche, ela é também uma crítica à filosofia do Nietzsche, pois acredito que não basta só mostrar o que o filósofo fala mas mostrar a visão que eu tenho daquilo que o filósofo diz.

 
AD – Do ponto de vista das gravações, quais foram os seus maiores desafios? O que você aprendeu com o processo de fazer o filme?
DC – O cinema é descrito como “a arte do diretor” – se o teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor. Dirigir tem um quê de intuitivo. Construir uma narrativa cinematográfica é pensar não somente em quadros, em imagens, em elementos visuais. É dar uma função narrativa a cada um desses elementos, por mais curto, breve e imperceptível que seja aos olhos do público. Para mim, um plano, um enquadramento não funciona se ele não tem uma função dramática, isto é, ter uma função de existir, ter uma função de ser dessa maneira, ter a intenção de causar um estímulo no público. Então a construção e a combinação de imagens e sons do filme precisam ter um motivo de existir e causar um estímulo, bom ou ruim. Eu fui adquirindo essa visão da função dramática dos elementos narrativos ao longo da realização do curta. O que importa no cinema é a maneira como aquela história é contada. E esse “como” diz respeito às escolhas tomadas pelo diretor. A direção de O Ano em que o Sol Morreu me fez aprender tudo isso.

 

Cartaz_O Ano em que o Sol Morreu

Cartaz do curta-metragem dirigido pelo Casperiano

AD – O filme vai estrear no dia 28 de abril no Teatro Cásper Líbero…
DC – É uma premiere. É a primeira vez que o filme será exibido para um público grande. É a primeira vez que um filme autoral meu será exibido. Acredito que o mais interessante é que vai acontecer uma discussão sobre o curta depois da exibição. Eu sempre fui muito amigo do professor de filosofia Mauro Araújo, pela afinidade com a disciplina, e essa sessão especial do dia 28 não existiria sem a ajuda do professor Mauro Araújo, do professor Roberto D’Ugo, coordenador do curso de RTVI, e da professora Sonia Breitenwieser, coordenadora de Cultura Geral, que juntos organizaram o evento. Por isso, eu devo muito a eles. E acho que o mais legal dessa premiere não será somente a exibição do filme, mas o que pode ser gerado depois da exibição, pela fala dos professores e pelo debate com os convidados externos que foram convidados a participar do evento.

 
AD – O Ano em que o Sol Morreu foi selecionado para o II Festival de Cinema de Belo Jardim, que acontecerá em maio, em Pernambuco. Como você recebeu essa notícia?
DC – Esse é meu primeiro filme que é selecionado para um festival de cinema. E eu estou muito feliz pelo convite, eu irei até o festival, que fica a aproximadamente 100 quilômetros de Recife, então é no coração do sertão nordestino. E por que eu escolhi inscrever o filme no festival de Belo Jardim? Primeiro, porque eu acho que o maior polo de cinema do Brasil atualmente não é São Paulo, nem Rio de Janeiro. É Pernambuco, em particular, e todo o Nordeste, no geral. E, querendo ou não, o Sandro Guerra é de Recife e a Júlia Gama [atriz que interpreta a personagem Lisbella] morou muito tempo em Pernambuco. Então, me pareceu muito justo que, da mesma forma que a primeira exibição do filme fosse feita na Cásper Líbero, o meu maior alvo fosse a região nordeste do país. O Ano em que o Sol Morreu foi selecionado para o II Festival de Belo Jardim porque o filme está dentro da temática do festival, que é a mulher no cinema brasileiro. E, além de contar com uma protagonista feminina, o meu filme tem uma grande equipe de mulheres trabalhando na produção, no roteiro, design gráfico, direção de arte, figurino. Outra coisa: meu filme não é bom porque as pessoas que o assistiram são minhas amigas e gostaram. Não. Meu filme é bom porque ele foi selecionado para o Festival. E eu espero que seja o primeiro de muitos.