Fábrica de gênios?

Elisa Bentivegna

O conteúdo interdisciplinar é o diferencial do curso

IMAGINE FREQUENTAR UM curso universitário onde exista uma cozinha à sua disposição, uma biblioteca com jogos de tabuleiro, violão e sofás para momentos de descanso. Parece mentira, mas ele existe. No entanto, junto com todas essas regalias, vêm salas de aula com lousas recheadas de números, complexas equações e uma avaliação com duração de até 24 horas. Trata-se do curso interdisciplinar de Ciências Moleculares (CM) da Universidade de São Paulo (USP) que reúne Biologia, Química, Matemática, Física e Computação.

A ideia de criar o CM surgiu a partir de conversas entre o professor Roberto Lobo, físico e então reitor da USP, e o professor Erney Carmargo, então Pró-Reitor de Pesquisa na área biológica. Lucile Maria Floeter-Winter, professora de Biologia Molecular do curso, conta que “cada um [Roberto e Erney] falava dos avanços de suas respectivas áreas de atuação quando perceberam as limitações de linguagem que impediam a compreensão das novas informações.”

O curso nasceu com a pretensão de formar profissionais capazes de interpretar as linguagens das ciências estudadas e integrálas dentro do campo científico ou do mercado. Somada a tal objetivo está a vontade de formar pesquisadores que inovem o futuro da ciência brasileira.

 

NOVOS RUMOS

Os interessados em ingressar no CM devem frequentar qualquer curso da USP, não importando a área do conhecimento em que ele se encaixe. A seleção acontece no meio do ano letivo e inclui uma prova com questões dissertativas sobre as áreas de Exatas e Biológicas, além da tradução para o português de um texto científico escrito em inglês. Após essa primeira etapa da seleção, é feita uma dinâmica de grupo com até vinte alunos.

Outra forma de recrutar interessados são as cartas de convocação enviadas para os melhores colocados no vestibular das diversas carreiras da Universidade. Eles são convidados a conhecer a proposta do curso e a prestarem a prova.

O quesito necessário para ser aprovado não é propriamente a exatidão nas respostas da avaliação: o diferencial é saber debater ideias e desenvolver um raciocínio lógico. “Sabendo o conteúdo ou não, conta aos avaliadores a iniciativa e a capacidade dos interessados de discutir com quem defende ideias diferentes”, explica Thaís Damasio, 18 anos, aluna do 1º ano de CM.

O curso de Ciências Moleculares tem duração de quatro anos e é dividido em dois ciclos: Básico e Avançado. No primeiro, o aluno estuda com intensidade todas as disciplinas teóricas básicas, como Biologia, Computação, Física, Matemática e Química. “É um ciclo básico comum, em que a linguagem e os conceitos fundamentais de cada disciplina são apresentados de modo a instigar o estudante a questionar e discutir”, sintetiza a professora Lucile.

Na segunda metade do curso, cada aluno, orientado por um professor, monta a sua própria grade curricular direcionada à área de pesquisa que deseja seguir. O aluno pode escolher disciplinas de Pós-Graduação, o que o leva, após a conclusão do curso de CM, diretamente para um doutorado.

 

GÊNIOS?

Nem tanto. De acordo com Rodrigo Guioda, 31 anos, aluno do primeiro ano, os gênios estão na Física, na Química. “Não acho que somos gênios. Somos desocupados”, brinca. Outros alunos presentes na biblioteca, em tom de brincadeira, concordam. Aliás, entenda como biblioteca uma pequena sala que, além de livros e mesas, contém dois sofás convidativos.

O estudante garante que o curso não é um reduto de gênios, embora os alunos sejam vistos desta forma: “Outro dia eu estava sentado no campus e passou uma excursão de estudantes do segundo grau. O guia apontou e falou: ‘Ali é o prédio de Ciências Moleculares, um curso super difícil de entrar. Somente pessoas muito inteligentes entram e é super complicado’”. Fernanda Chupel, outra aluna do primeiro ano, explica que não tem nada a ver com genialidade: “A verdade é que gostamos de estudar. Só isso.”

É certo que no mural perto da porta de entrada há um cartaz com a figura de Sheldon Cooper (um dos personagens principais do seriado The Big Bang Theory, uma comédia sobre cientistas nerds). Mas os alunos não se parecem em nada com ele, que representa um antissocial cômico. São, sim, bem disciplinados em relação aos estudos e à administração do tempo – precisam ser, já que caso peguem a famigerada dependência (DP) são jubilados. Mas, ao mesmo tempo, são jovens que saem com os amigos, jogam videogame e conversam sobre sexo.

Tal postura foi exatamente o que surpreendeu Thaís Damasio ao entrar no curso: “Imaginava encontrar pessoas muito quietas e tímidas, mas me deparei com o oposto”. Essa mistura entre estudos e diversão é visível no FAVO 22 (local dentro da USP onde fica o curso de Ciências Moleculares). Os armários, abarrotados de livros ciêntíficos, encontram um espaço para também guardar jogos de tabuleiro. Silêncio na biblioteca? Na hora do intervalo não. O pessoal toca violão e conversa bastante, fazendo-nos deixar de lado a ideia de alunos Sheldons.

 

Laura Galloti

No intervalo, a biblioteca se transforma num espaço 
de lazer regado à conversa e música

MEDIADORES DA CIÊNCIA

Para Rodrigo Alves Consoli, também calouro, a interdisciplinaridade é o ponto forte do curso. “Ter uma base teórica mais ampla ajudará bastante no futuro. Poderei conversar com um físico ou com um químico de igual para igual, por exemplo. Normalmente, físicos e químicos têm dificuldades para entenderem uns aos outros.”

De acordo com a professora Lucile Floeter- Winter, a interdisciplinaridade traz outras vantagens. “Com essa formação, é possível trabalhar na área acadêmica, mas também em processos inovadores”, conta.

Rodrigo Rezende, jornalista científico e ex-aluno do CM e da Faculdade Cásper Líbero expõe que o método de estudo do curso auxilia nas novas empreitadas: “Eles treinam a sua flexibilidade de raciocínio do início ao fim. Acaba sendo útil para qualquer mercado. Tem muito conhecimento novo surgindo e muitos lugares para aplicar”, comenta.

Hoje, Rodrigo trabalha no projeto de desenvolvimento de um site que une medicina, biologia e planejamento de dados, juntamente com Victório Braccialli Neto, antigo colega de classe no CM.

 

ALÉM DOS ÁTOMOS

Para Giulia Maesaka, aluna do ciclo avançado, fazer um curso desconhecido é um desafio. “As pessoas só sabem o que estudei quando explico, já que não são as mesmas matérias para todos que cursam CM. Às vezes, o fato de cada um ter uma grade diferente nos deixa inseguros.”

Mais do que insegurança, alguns alunos acreditam que a falta de conhecimento do público perante a formação do profissional de Ciências Moleculares seja uma dificuldade na hora da seleção para uma vaga de emprego. “Tem gente que olha o currículo e fala ‘Ciências o quê?’”, brinca Braccialli. “Você nunca vê em nenhuma ata de emprego escrito ‘Ciências Moleculares’, completa.

Outro desafio enfrentado pelos profissionais de Ciências Moleculares são as poucas oportunidades para áreas de pesquisa no país. Braccialli afirma que o principal motivo do Brasil ser atrasado na área científica em relação a outros países não é a falta de investimento, mas sim a burocracia. “Meu orientador [Frederico Gueiros] solicitou a compra de um microscópio de 200 mil dólares. Depois

de comprado, o microscópio ficou dois anos barrado na alfândega. Quando finalmente chegou, o professor o chamava de ‘elefante branco’, porque já estava ultrapassado.”

Braccialli ainda mencionou que apenas dois ou 3% dos pesquisadores formados em Ciências Moleculares vão pesquisar no exterior. A porcentagem pode soar negativa, mas quem sabe não seja uma oportunidade para o Brasil se tornar uma potência científica.