Geração balada

Em um dos ambientes da Bubu Louge Disco, o DJ 
comanda a música eletrônica

QUINTA-FEIRA, dia de chegar em casa cansado, assistir à novela e cair na cama o quanto antes. Certo? Errado. São 23h30 e a Rua Augusta está movimentada. Aqui não tem essa: todo dia é dia de sair com os amigos. Jovens se aglomeram na porta das baladas, esperando para entrar no local. Já é possível observá-los com copos de bebidas nas mãos.

Na Inferno Club, localizada no Baixo Augusta, os tímidos frequentadores se desalinham fugindo do centro da pista. No começo da noite, ninguém dança. Só se ouve a batida da música eletrônica ao fundo das conversas de balcão de quem compra bebidas. Uma pessoa ou outra começa a dançar timidamente. Outra turma observa e vai no embalo.

Os ainda desambientados desenham figuras e símbolos no corpo com tinta neon, tentando se incorporar à festa psicodélica Neon Party. Questionada sobre o propósito da pintura, Juliana, 20 anos, explica: “Se não fizer jus ao nome da festa, não tem graça. Se a pessoa não se pintar por bem, a gente pinta por mal”, brinca. Passados quarenta minutos de festa, os jovens, em sua maioria vestidos com jaqueta de couro e roupas escuras, já estão todos coloridos.

Na sexta-feira, o traje é bem diferente nos arredores do Jardins. A casa sertaneja Wood’s Bar, no bairro do Itaim, revela um código entre as mulheres: roupas mais justas, salto alto e batom na boca são quase um uniforme feminino por lá. O tema sertanejo parece não importar na hora de se vestir.

Início de balada segue quase sempre o mesmo protocolo: grupos de amigos se reúnem perto do bar e olham a casa, analisando as pessoas – especialmente as mulheres – que chegam. Elas, por sua vez, se revezam no banheiro para retocar o batom, ajeitar a roupa e conversar com as amigas.

Seguindo a tendência masculina está o baiano Pedro, 23 anos, de passagem pela cidade a trabalho. Ao seu lado, Tiago, 21 anos, acompanha-o na bebida. Com um sorriso no rosto, confessa: “Estou estudando a área”. O soteropolitano, contudo, não é radical, pois para ele a balada não é só motivo de “pegação”. Se a música do local for de seu agrado, ele sai para curtir o som.

Com o mesmo clima de azaração, a Bubu Lounge Disco tem sua casa repleta de baladeiros. Gays e héteros se misturam na pista e protagonizam divertidas histórias. É o que conta o barman Rogério: “Havia um cliente que sempre vinha com um Garfield de pelúcia para cá e não o largava para nada. Era engraçado, porque ele não se importava com os olhares estranhos.”

 

DA SIMPLICIDADE À LUXÚRIA

Música boa, gente bonita e um ambiente bem pensado fecham o pacote do que faz uma boa balada, na opinião de Vivian Mamed, 22 anos, e Marjorie El Dib, 23 anos, frequentadoras do Wood’s Bar.

Isso é nítido na Bubu Lounge Disco, que conta com três ambientes. No primeiro, as pessoas se divertem ao som de MPB ao vivo. Logo adiante, somos embalados por I will survive e Like a virgin. Por último, o espaço da música eletrônica, decorado por luxuosos lustres que mudam de cor, neblina artificial e luzes piscantes.

Mãos ao alto, brindes, beijos, abraços e sorrisos a solta. Danças conjuntas ou em casal em cima da caixa de som. É quase impossível encontrar alguém parado. A batida se mistura à arte circense de um casal contorcionista que se apresenta em lençóis.

No Wood´s Bar, o piso e o palco de madeira, lei nesse tipo de casa, são as únicas coisas que remetem à temática sertaneja. No restante, a decoração é sóbria, sem muitos adornos. Com apenas uma pista e um camarote no piso superior, a casa é pequena e aconchegante. A pista é modesta, mas ideal para o público que quer se aproximar das duplas sertanejas.

 

O CAMPUS TAMBÉM É PARA BADALAR

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) se transforma na sexta-feira à noite. O “buraco da FAU”, apelido dado pelos alunos à parte externa da faculdade, que durante a semana é apenas um gramado, já está equipado com tendas, refrigeradores e banheiros químicos.

Os frequentadores vêm dos mais diversos cursos e faculdades. “O mais legal é a integração, é conhecer o pessoal de outros lugares”, comenta Laura, 19 anos, que estuda na PUC-SP, mas sempre frequenta festas de outras faculdades. O som é eclético e divertido: desde rock até os sucessos da internet.

Além de a entrada ser gratuita, outro motivo que atrai muitos baladeiros são os baixos preços das bebidas. Um copo de vodka com refrigerante custa cinco reais, enquanto em uma casa noturna não sairia por menos de dez. A consequência do preço baixo é a grande quantidade de pessoas embriagadas além de conta. Mas o estudante Vitor, 21 anos, considera isso normal em uma festa universitária: “As pessoas vêm para beber.”

Por que a balada e não um restaurante, um barzinho com música ao vivo ou até mesmo, uma reunião na casa de amigos, regada a bebida e música? Para Bruno e Guilherme, fãs de carteirinha do sertanejo, o motivo é mulher: “Se fôssemos colocar em um gráfico, 70% da razão de ir para a balada é mulher.” O que já não acontece no caso de Roberta e suas amigas, que resolveram encarar o sertanejo da Wood’s Bar para comemorar sua despedida de solteira: “Balada é para extravasar e relaxar dos compromissos da semana.” Chega a ser contraditório, mas essa geração do século XXI se escuta melhor num lugar com música alta, se vê mais facilmente na iluminação irregular e se sente planando sozinha numa multidão de pessoas.