Jornalismo com teto de vidro

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Stephen Glass (Hayden Christensen) é um jornalista carismático 
e altamente criativo e manipulador, mas suas qualidades 
acabam sendo sua ruína

Algumas histórias nos ensinam por bons exemplos, outras por maus, mas O Preço de uma Verdade (Shattered Glass) de 2003, do diretor e roteirista Billy Ray, tem ambos. Stephen Glass (Hayden Christensen) tem todas as qualidades necessárias para um jornalista de primeira linha: é ótimo com pessoas, criativo, tem uma conversa agradável e senso de humor. Essas características conquistaram seus colegas de redação da The New Republic e o editor Michael Kelly (Hank Azaria). Faltava a Glass, porém, matérias que fossem suficientemente relevantes para mostrar seu talento. Manipulando e improvisando seu caminho, forjou diversas matérias para a TNR e outras revistas que trabalhou como freelancer. Muitas suspeitas eram levantadas contra os textos, mas seus amigos nas redações rebateram as críticas por ele durante muito tempo, principalmente Kelly, que acabou demitido por defender demais sua equipe do abusivo diretor Marty Peretz.

Em maio de 1998, quando escreveu sobre um jovem hacker que teria conseguido um contrato milionário da empresa que o adolescente atacou, Glass chamou a atenção do editor da Forbes Digital Tool, um site especializado em tecnologia, e do repórter Adam Penenberg (Steve Zahn). O novo editor da TNR Chuck Lane (Peter Sarsgaard), sem o prestígio de Kelly, precisa então enfrentar sua própria equipe para investigar e separar ficção e fato. 

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Lane é colocado como antagonista de Glass, mas seu personagem
é o herói moral do filme

Glass foi pego em um enorme escândalo de fraude jornalística. 27 dos seus 41 artigos na TNR eram forjados total ou parcialmente, além de outros para a Rolling Stone, a Policy Review e a extinta George. Mais do que apenas a queda de uma estrela das redações de Washington, este filme apresenta uma discussão ética essencial para a imprensa. Inventar matérias é certamente errado, mas as posturas de Kelly e Lane estão no campo do cinza. Michael defendeu Glass, assim como seus outros repórteres, dando a ele um status de mártir. Chuck teve uma postura crítica, que, ao contrário, fez dele um pária em sua própria redação. É visível como cada editor protegeu a revista e seus membros por caminhos diferentes e com resultados diferentes.

Em sua essência, O Preço de uma Verdade é um filme sobre valores em decadência: as matérias parcialmente forjadas que evoluem para inteiramente fantasiosas, o editor defensor de seus repórteres e acaba sendo permissivo, a equipe que é manipulada por um jovem carismático e o garoto que se usa da fragilidade para fazer o papel da vítima abusada.

 Stephen é um narrador não confiável, que reforça a dramaticidade do filme, quando ele se opõe ao editor. Chuck, por sua vez, se destaca ao bater de frente com a equipe, principalmente em uma discussão com Caitlin Avey (Chloë Sevigny), uma das jornalistas amigas de Glass. É interessante notar a grande diferença de popularidade entre os dois, que acaba por se inverter ao final. Em suma, O Preço de uma Verdade mostra muito sobre como mesmo aqueles que estão mais atentos para a verdade dos fatos podem ser manipulados. A ética, a atenção e o cuidado em todo o processo são fundamentais para garantir que o resultado seja o objetivo final do jornalismo: representar a realidade.