Os Melhores Filhos

Por: Roberto Fideli, aluno do 4º ano de Jornalismo

Jogos Vorazes: Em Chamas apresenta mais ou menos a mesma coisa que seu predecessor, no entanto, levando suas emoções e críticas a lugares mais profundos

 

Crédito: divulgação

Escapismo Pop pode ser revigorante quando feito pelas pessoas certas. Christopher Nolan fez com a trilogia Batman, Alfonso Cuarón com Gravidade e, agora, surpreendentemente, Francis Lawrence com o segundo filme da franquia Jogos Vorazes, Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, EUA, 2013).

A troca de diretores, de Gary Ross (Seabiscuit: Alma de Herói) para Francis Lawrence (Eu Sou a Lenda) a princípio pareceu ter sido uma escolha errada. Ross, que recebeu críticas dos fãs por ter “chacoalhado demais a câmera” na primeira adaptação dos romances de Suzanne Collins, é um diretor humanista e seu estilo hipernaturalista ficou marcado no primeiro filme. O que é bom para esse tipo de história.

Lawrence, no entanto, apesar de ser um diretor muito detalhista, é mais conhecido por ter feito filmes de grande orçamento que não foram criticamente bem recebidos, como Constantine (2005), Eu Sou a Lenda (2007) e Água Para Elefantes (2011). Os dois primeiros são relativamente bons, ao se apoiarem nas boas performances de seus atores principais, mas o terceiro é um colossal erro de cálculo. 

Contudo, ao contrário de muitas expectativas, com um orçamento maior, um elenco melhor (o que sempre é bom) e uma câmera mais estável, Lawrence se mostrou um cineasta mais preciso, e fez um filme mais coerente e impactante do que seu predecessor. 

Após os eventos da 74ª edição de Jogos Vorazes, Katniss Everdeen (a recém-vencedora do Oscar, Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson) devem voltar à Arena que quase lhes tirou a vida no primeiro filme. A vitória de ambos causou problemas para a estrutura de Panem, o Estado totalitário e violento comandado pelo implacável presidente Snow (Donald Sutherland, deitando e rolando). Os dois deveriam se tornar uma distração, mas o estrago está feito. Snow, portanto, contrata Plutarch Heavensbee (Phillip Seymor Hoffman, que gosta de roubar a cena) para desenvolver um novo jogo. Este, terá seus participantes escolhidos entre os vencedores de edições anteriores.

Jennifer Lawrence precisa exercitar seus músculos como atriz, e seu trabalho no papel da protagonista se mostrou mais minimalista e complexo do que no primeiro capítulo da trilogia. Até Josh Hutcherson, como Peeta, mostrou um tremendo crescimento psicológico e emocional. O filme ainda conta com as ótimas participações de Woody Harrelson, Haymitch, o alcóolatra mentor de Katniss; Lenny Kravitz como o estilista Cinna; Elizabeth Banks, a Relações Públicas dos dois vencedores, Effie e Stanley Tucci, como o malignamente hilário apresentador de televisão, Caesar Flickerman. 

Em Chamas apresenta uma estrutura narrativa muito semelhante ao do primeiro filme. No entanto, ganha bônus por levar sua intensidade dramática e sátira política a níveis mais profundos. O filme abre, não com uma sequência de ação, com um monólogo, ou com um pesadelo que daria o tom dramático do restante da experiência, mas com uma cena de Katniss contemplando a imensidão branca que o inverno trouxe para o Distrito 12, imersa em seus pensamentos. Nunca foi sua intenção se tornar líder de uma revolução, e o diretor Francis Lawrence trabalha, sem pressa, sua inerente fragilidade. 

Mas o que realmente dá o impacto de Em Chamas é ver um grupo de talentosos atores e profissionais comprometidos integralmente em seus respectivos trabalhos. Em todas as esferas, percebe-se que os responsáveis por trazerem o filme às telas, acreditaram no material que eles tinham em mãos (o que raramente – senão, nunca – acontece em adaptações de romances juvenis). 

Com o roteiro dos vencedores do Oscar, Simon Beaufoy (Quem Quer ser um Milionário) e Michael DeBruyn (um pseudônimo para Michael Arndt, vencedor do Oscar por Pequena Miss Sunshine), Jogos Vorazes: Em Chamas é um dramático filme de ficção científica de ação, que aprofunda suas críticas políticas e sociais: toda e qualquer guerra, normalmente leva consigo seus melhores filhos. Os mais belos, fortes, inteligentes e bem preparados. Os sobreviventes servem como propagandas para propósitos políticos, sofrem com distúrbios de stress pós-traumático, e a mídia de entretenimento os usa para mascarar quem o é o verdadeiro inimigo.