Política Erótica

Por: Gabriel Fabri, aluno do 2º ano de jornalismo

Além de sexo explícito, livro traz críticas sociais e referências a clássicos do cinema

 

Crédito: Reprodução

Em A Bela da Tarde, uma das obras-primas do cineasta surrealista Luis Buñel, Séverine, interpretada por Catherine Devenue, havia um casamento razoavelmente sólido e uma condição financeira invejável. Entediada de sua rotina, ela, após relutar um pouco e sem saber exatamente o porquê, provoca uma reviravolta em sua vida: resolve começar a trabalhar em um bordel. Quando Catherine, não a atriz francesa, mas a personagem principal de Juliette Society, assiste ao clássico de Buñel, ela se identifica quase de imediato com a figura de Séverine.

O enredo do primeiro romance da norte-americana Sasha Grey se assemelha bastante com o do filme, com um tempero a mais de inspiração em Marquês de Sade. Catherine também está infeliz no seu casamento, também tem fantasias sexuais reprimidas, muitas com o seu professor de cinema, Marcus. Ao invés de se tornar prostituta, todavia, a personagem se torna amiga da sedutora Anna, que faz vídeos de sexo bizarros para um site chamado SODOMA. Essa amizade apresentará um novo mundo para a protagonista.

Vendido como uma versão mais ousada de 50 tons de cinza, o livro de Sasha Grey tenta transgredir a marca de entretenimento fútil que estaria fadado a carregar. Fardo que veio com a soma do fenômeno literário da trilogia de E.L. James ainda fazendo barulho e o fato de Sasha Grey ser referência mundial por ter exercido por três anos a profissão de atriz pornô, atuando em mais de 200 produções envolvendo sexo explícito. Ela ficaria ainda mais famosa após se aposentar e estrear o filme Confissões de Uma Garota de Programa, do diretor Stephen Soderbergh.

Essa transgressão não se deve apenas ao fato de Sasha ter muita experiência quando se trata de sexo, o que permitiu descrições minuciosas de fantasias, posições e situações, e uma imaginação que faria o “quarto vermelho da dor” do romance de E.L. James parecer um cômodo de criança. Grey acerta ao buscar referências em filmes cultuados, clássicos do cinema mundialmente celebrados, como Cidadão Kane, e parece dominar bem a escrita ao criar e desenvolver personagens envolventes e sedutores.

Catherine é uma mulher repleta de densidade, de personalidade forte, certa de si, mas ao mesmo tempo bastante confusa. Grey sabe explorar a personagem que criou, seus desejos, seus temores e suas convicções. Mas sabe também que isso não é o bastante. Por isso, a autora alfineta a política, os políticos, os ricos e os grandes empresários de maneira geral. Às vezes, indignada, outras vezes de maneira sutil. Por trás de tanto sexo, Grey não dispensa uma camada de crítica social, sem tornar a obra panfletária ou enfadonha. Logo no início, no primeiro capítulo, ela define os membros da tal Juliette Society como pessoas que vivem “comendo” os outros, e que, nas horas vagas, fazem isso literalmente. Partem dessa premissa as críticas de Sasha, cujo livro tem um enredo que serve de um bom argumento para essa definição.

Com um clímax surpreendente e de tirar o fôlego, o livro de Sasha Grey pode ser um achado para quem quer uma leitura de alta carga erótica e explícita, mas não larga mão de uma boa história. Se Grey afirma que entrou para a pornografia tentando acrescentar algum tipo de conteúdo além dos velhos clichês, aqui ela tenta, com certo sucesso, fazer o mesmo com o romance erótico, e o resultado é positivo.