Prisioneiros da Alma

Por: Roberto Fideli, aluno do 4º ano de jornalismo

Em seu primeiro filme em inglês, o cineasta Dennis Villeneuve arquiteta um suspense assustador com uma complexa trama moral

 

Crédito: divulgação

Os Suspeitos (Prisoners, EUA/CAN, 2013) o primeiro filme em inglês do diretor canadense Dennis Villeneuve, é um envolvente suspense policial, mas que ao mesmo tempo atua como um complexo estudo sobre violência e suas consequências, em uma pequena comunidade dos Estados Unidos.

Os tributos do pecado, da inveja, da culpa e da redenção pesam em todos os personagens de Os Suspeitos. Keller Dover (Hugh Jackman), na cena de abertura do filme, está caçando cervos com seu filho, quando diz: “sempre esteja preparado”. No entanto, nada poderá prepará-lo para os eventos que se sucederão. 

Num dia aparentemente normal, a filha de Dover e sua amiga são raptadas em plena luz do dia. Desesperado, e com poucos resultados vindos da investigação policial, liderada pelo detetive Loki (Jake Gyllenhaal), Dover decide raptar o principal suspeito: Alex Jones, um jovem com Q.I. de um menino de dez anos, cujo trailer supostamente estava estacionado perto de onde as meninas foram vistas por último. 

O que vem a seguir é uma espiral de violência de consequências devastadoras. Os Suspeitos pode, a princípio, ser considerado uma exploração sem-vergonha dos limites da natureza humana. Não obstante, é feito com um cuidado artístico e estético tamanho que as objeções desaparecem. 

A fotografia do extraordinário Roger Deakins ressalta as mais fracas e sutis fontes de luz e a sequência final é estarrecedora. O veterano diretor de fotografia, dez vezes indicado ao Oscar, agrega valor de produção ao filme, mas não somente, amplifica o suspense criado pelos personagens e situações. 

As performances, capitaneadas por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal, aparecem como algumas das melhores de suas respectivas carreiras. Elas são absolutamente individuais, no sentido em que seus personagens estão tão interiorizados em seus determinados dilemas, que cada um atua para si. No entanto, todos estão intersubjetivamente conectados: elementos do passado afetam o presente e o futuro de cada um deles. 

Cada personagem é prisioneiro de alguma forma (daí, portanto, o título do filme), embora não estejam fisicamente enclausurados. Dover, cujo pai era suicida, é prisioneiro de seu alcoolismo, enquanto o detetive Loki foi vítima de abusos quando era criança: traumas na infância e juventude de cada um deles, que os atormentam em sua vida adulta. 

É fato que o diretor Dennis Villeneuve e o roteirista, Aaron Guzikowski deixam de lado os dramas psicológicos no último terço do filme, para se focarem essencialmente no suspense. No entanto, como exercício no gênero ele é quase perfeito. Todas as pontas se amarram e o final é surpreendente: este é um dos melhores filmes do ano.