A Caminhada Noturna

Por: Marcus Vinicius Galassi Montanhero

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Edição nº 1 – 2014

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Bandeira da Caminhada Noturna. Crédito: Gabriela Galassi

Um passeio diferente e em prol da cultura. Assim posso definir a chamada Caminhada Noturna, um evento semanal, com a participação de um público de cinquenta a cem pessoas, temático, organizado durante todas as quintas-feiras às 20h pelas ruas do Centro de São Paulo. Os temas são os mais variados. Dependendo da data aproximada comemorada (seja durante a semana ou na exata quinta-feira), os organizadores resolvem trabalhar com palestras, abordando, justamente, a temática do evento. No último 5 de junho, por exemplo, foi comemorado o Dia do Meio Ambiente. E o programa escolhido para o dia 7 foi uma visita ao Jardim da Luz..

Estive presente e pude conferir detalhes sobre como é feita a caminhada. O ponto de encontro foi o Teatro Municipal de São Paulo. Os organizadores da passeata utilizavam um colete e juntavam todos os participantes na escadaria do local. Laércio, um dos coordenadores, inicia o evento em uma interação (de forma divertida) com os participantes. Ele utiliza um microfone conectado a uma caixa de som, a qual se encontrava presa a garupa de uma bicicleta amarela, onde também vai presa uma bandeira amarela com o símbolo da Caminhada juntamente do seguinte enunciado: “Caminhada noturna pelo Centro. Participe do passeio gratuito pela recuperação do Centro de São Paulo.”

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Durante a caminhada no Jardim da Luz. Crédito: Gabriela Galassi

Na sequência, Laércio, outro integrante da coordenação, assume a posição de narrador. Ele comenta sobre a gestão do Anhangabaú e critica a falta de segurança na cidade, sendo que o orçamento é grande. E como o assunto é a própria segurança, não há nenhum segurança para quem acompanha o passeio. Notei também outro ponto que Laércio frisou pouco depois: o número de participantes. No dia, havia no máximo trinta pessoas. O baixo número se deu devido ao polêmico acontecimento da quinta-feira, a greve do metrô.

O primeiro ponto pelo qual passamos durante o inicio da Caminhada foi o Vale do Anhangabaú, seguido da Praça Ramos de Azevedo (a música “Caminhada”, composta por Carlos Moura, é tocada e cantada durante o percurso). Logo após, pude enxergar o famoso Edifício dos Correios, o Largo do Paissandu, passando pelo Viaduto Santa Efigênia. Laércio fala um pouco sobre ele, inaugurado em 1913. Seu arquiteto foi o italiano Giulio Michetti. E uma informação bem interessante é que foi necessário fazer os dois viadutos devido ao inesperado crescimento da cidade.

O percurso continua agora pela Brigadeiro Tobias e pelo Palácio da Polícia. Aqui, um comentário importante sobre o processo de recuperação do Centro, o motivo principal da criação da Caminhada. Foram trinta anos para que houvesse uma reforma digna. E nos primeiros dez, não houve absolutamente uma mobilização. Com toda essa luta, os participantes do processo conseguiram trazer de volta a um só lugar todas as secretarias que andavam espalhadas pela cidade. Inclusive chamar a atenção de Geraldo Alckmin. Uma excelente estratégia.

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Parque da Luz. Crédito: Gabriela Galassi

Continuo a caminhada, observando agora a Estação da Luz. Logo ali por perto, avistei o famoso Museu da Língua Portuguesa e a Pinacoteca, passando pela Estação Júlio Prestes, até finalmente chegar ao ponto principal: o Jardim da Luz. Na entrada, foi feita uma pausa para fotografias dos participantes junto dos organizadores. E, creio eu que para haver uma combinação com a cultura, um deles fez a leitura de um poema sobre São Paulo. A coordenadora do programa “Trilhas Urbanas”, Virginia, toma a palavra e fala sobre o projeto do Jardim, onde tudo começou com educação ambiental. Em 1825, foi criado o primeiro Jardim Público de São Paulo (anteriormente conhecido como Jardim Botânico em 1798, e fundado por D. João VI, projeto este que acabou não vingando). A região acabou sendo abandonada e tornou-se até pasto de gado durante algum tempo.

Fugindo um pouco dos detalhes históricos, gostaria de comentar sobre o defeito no microfone. Apenas nos momentos em que Virgínia o utilizava, o funcionamento era ruim. As pessoas não conseguiam ouvir o que a palestrante dizia, e houve reclamações. Ela dizia que já estava gritando, porém o tom de sua voz costumava ser baixo.

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Parque da Luz (Quadro da história de sua construção). Crédito: Gabriela Galassi

Voltando a falar sobre o projeto do Jardim, Virgínia cita o descobrimento de que houve uma torre no local, quando foram feitas as irrigações. Devido a uma palmeira não replantada, foram encontrados vários itens para construção. E falando das palmeiras, observei algumas marcações feitas nas plantas. Eram vistas letras, como T ou L. Isso tudo foi comentado pelos palestrantes como atos propositais. Algumas pessoas costumavam fazer buracos nas árvores e, com isso, a prefeitura passava cimento por cima e pintava de marrom.

Fiquei maravilhado com a boa estrutura das árvores. Uma sapucaia encontrada lá já tem mais de cem anos. E alguns bichos-preguiça até habitam nelas. Não consegui encontrar nenhum por já estar escuro.

Outras curiosidades foram expostas, como a presença de mini-chalés usados como restaurantes, pontos para venda de sorvetes, justamente para unir-se ao entretenimento que o parque oferecia. Dentre algumas atividades, experiências com balões. A utilização para limpeza é de poço artesiano, feita regularmente.

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Início da Caminhada em frente ao Teatro Municipal. Crédito: Gabriela Galassi

O passeio chega ao fim com sensação de dever cumprido. Cheguei até a entrar em uma gruta e subir as escadas para estar em cima dela. Os palestrantes e os organizadores fazem do passeio um verdadeiro poço de diversões, misturando momentos de descontração, seriedade e conhecimento. Deixando, contudo, os participantes da Caminhada à vontade. E nada mais correto do que encerrar com um dos coordenadores do local citando a Poesia da Natureza. Todos se reúnem na volta da caminhada, novamente até o Teatro Municipal.