O rock conquista leitores com suas incríveis histórias

Por: Lygia Conde

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Edição nº zero – 2013

O mercado editorial passa por uma fase difícil em todo o mundo, provocada pela recessão econômica e pela transição para os e-books. No entanto, a popularidade das biografias de músicos e bandas de rock tem ajudado o comércio de livros e é uma esperança para os vendedores e as editoras, que investem cada dia mais no gênero.

Claramente existe uma demanda que tornou um novo filão editorial. Nos últimos três anos, o Brasil recebeu mais de 250 livros de rock, com sucessos nas listas dos mais vendidos. Keith Richards ganhou US$ 7 milhões por seu livro de memórias “Life”, que passou 22 semanas na lista de best-sellers do jornal americano The New York Times. Já a autobiografia de Steven Tyler, vocalista do Aerosmith, fez tanto sucesso na fase de pré-vendas que foi preciso encomendar mais seis reimpressões antes do lançamento. Casos bem-sucedidos como esses motivam as editoras a fechar cada vez mais contratos com músicos.

Para os agentes literários, esse grande lote de autobiografias roqueiras deve ter surgido não apenas por nostalgia, mas porque muitos artistas estão chegando ao final de suas carreiras, na idade natural para escrever um livro de memórias. As lendas do rock querem colocar suas histórias no papel, deixar esse legado. A vida dos músicos, talvez mais que de outras celebridades, é repleta de aventuras, viagens, drama, fama, glamour, dinheiro, e claro, muito sexo, drogas e rock and roll. As histórias costumam ser fascinantes e a interessar não somente aos admiradores.

As biografias proporcionam aos fãs ouvir todas as histórias sobre como seus ídolos viveram, as lendas e curiosidades do universo do rock, além dos processos artísticos e sociais. Algumas obras trazem itens de colecionador, como reproduções de pôsteres de shows, ingressos, listas manuscritas com os repertórios das apresentações e fotos raras. Para os fãs, não basta mais ouvir as músicas e ir aos shows, eles querem seus artistas preferidos presentes em outras esferas do cotidiano, como nos livros, na moda (camisas, bottons, bolsas) e na decoração da casa (pôsteres, canecas e bonecos).

No entanto, as obras de peso também abriram caminho para a literatura oportunista, com o intuito de esvaziar o bolso dos fãs. Dois exemplos são: “A Biografia Espiritual de George Harrison” e “A Sabedoria dos Beatles nos Negócios”. Também gera discussão a existência de biografias de artistas que alcançaram a fama bem antes dos 30 anos e que ainda não teriam tanta história assim para contar.

Uma nova leva de biografias lançadas nos Estados Unidos já espera futuras edições brasileiras, como os livros sobre Prince e Morrissey. E muitas outras novidades devem vir por aí.

A polêmica das biografias no Brasil 
No Brasil, as biografias não autorizadas ainda são proibidas. Se o artista não quer ninguém falando sobre sua vida, a justiça barra a venda do livro. Mas esse cenário pode estar prestes a mudar. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, em caráter conclusivo, a alteração do artigo 20 do Código Civil, que assegura o direito à privacidade e tem sido usado como argumento de personalidades públicas para suspender esse tipo de obra.

Os casos mais conhecidos são do cantor Roberto Carlos e do grupo Procure Saber, presidido por Paula Lavigne, com membros como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Djavan, que se dizem contra a violação da intimidade e privacidade de uma pessoa. Outros artistas, porém, são absolutamente contrários a essa postura. A cantora Nana Caymmi disse “É uma ignorância proibir a nossa juventude de conhecer seus ídolos”. O compositor Aldir Blanc também afirmou “Sou inteiramente a favor da liberdade de biografias e contra todo e qualquer tipo de censura”. Para o escritor Ruy Castro “Se a lei for mudada todo mundo sairá ganhando: biógrafos, editores e, principalmente, os leitores”.

As recém-lançadas biografias sobre músicos brasileiros são um reflexo do mercado norte-americano. Entre as obras mais vendidas no país estão “50 Anos a Mil” do Lobão e “Vale tudo: o Som e a Fúria de Tim Maia”, escrito por Nelson Motta. Esse filão também está consolidado por aqui. Prova disso é que a Sonora Editora foi criada no mercado brasileiro com a proposta de lançar publicações relacionadas exclusivamente à música.