Vida expedicionária

Por: Vanessa Couto

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Edição nº zero – 2013

Arruaça-Vanessa Couto-2Alto, magro e com alguns cabelos grisalhos, sua aparência esconde a história expedicionária de Ricardo Nogueira de Morais Karman ou, como é mais conhecido, Ricardo Karman, com 56 anos fala com naturalidade sobre sua longa trajetória profissional. Formado em arquitetura tornou-se diretor e criador de espetáculos multimídia. Alcançando prêmios da Shell especial em 2001 de realização pela montagem de Viagem ao Centro da Terra no Rio de Janeiro, APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor espetáculo jovem de 2002 com a versão multimídia do clássico O Santo e a Porca. Em 2005 ganhou na APCA como melhor direção de teatro infantil e Coca-Cola FEMSA de melhor produção no O Ilha do Tesouro. No Biliri e o Pote Vazio foi melhor cenografia, trilha sonora e espetáculo infantil na FEMSA em 2011.

Sua curiosidade levou a estudar três cursos de graduação de áreas distintas, enquanto cursava arquitetura na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) pela manhã, à noite durante 3 anos foi aluno de Biologia no Instituto de Biociência da USP. Morava em uma república de músicos e sobrava tempo para tocar clarinete. Na sua turma de arquitetura Ricardo cita: “Saíram vários profissões menos arquiteto. Foram cineastas, artistas plásticos, diretores de teatro e cinema”. Sua conexão com as artes começou na faculdade com a influência de alguns professores: Flávio Império e Flávio Motta. Ficou em dúvida entre teatro e cinema, escolheu o teatro pois entendeu que sua vocação era para o entendimento do ser humano. Passou então em 3º lugar no curso de Artes Cênicas na ECA (Escola de Comunicação a Artes na USP) estudou até o terceiro ano e largou o curso.

Fazia parte de uma orquestra e sua primeira peça foi como clarinetista, aconteceu então seu primeiro contato com o teatro. Conheceu Ulisses Cruz, na época assistente do Antunes Filho, que o convidou para trabalhar no CPT (Centro de Pesquisa Teatral) em 1983. “Ficava só assistindo, estava todos os dias presente, anotava e sabia de tudo”, diz Ricardo sobre seu dia. Em 1985 assumiu o cargo de assistente de Antunes com a saída de Ulisses.

Nasceu e cresceu em São Paulo. Morou na Inglaterra depois de ganhar uma bolsa para estudar teatro em 1987. Enquanto esteve no Conselho Britânico, teve acesso a qualquer peça de teatro que desejava assistir, não foi à musicais pois não interessava, gostava de ir em teatros alternativos e experimentais, com peças da Bulgária e sobre áreas de conflito. Na Europa chegou a ser assistente visitante de Peter Gill, diretor do National Theatre.

Quando voltou ao Brasil resolveu montar sua companhia chamada Kompanhia Teatro Multimídia de São Paulo, criou sua primeira peça como diretor, escrito por Marcelo Rubens Paiva especialmente para o teatro em 1989. 525 linhas foi um espetáculo experimental multimídia com projeções de vídeo, recebeu várias críticas e afirma que guardava todas: “Diziam que faltava emoção do ator, era um absurdo e não podia usar imagens”. Durante apresentação conheceu Otávio Donasci que virou seu parceiro para todo o sempre. Enquanto saboreava seu pedido observou um prédio abandonado à sua frente, lembrou que esse não era o único edifício nestas condições, denominou-os então de sucatas urbanas. Teve a ideia de utiliza-los para realização de espetáculos. Ricardo criou seu primeiro projeto para ambientes públicos com Otávio chamado O Edifício, porém não vingou pois não conseguiram o prédio.

Caminhava todos os dias, só parava para tomar mate com leite e comer linguiça de frango. Gostava de estudar textos antigos que sobrevivem por muitos séculos como, O Rei Arthur e A Divina Comédia de Dante. Criou um segundo projeto A Ilha do Tesouro para a mansão da Av. Paulista, local onde hoje tem o mundo mix, mas por falta de recursos e considerando o espaço pequeno desistiu da ideia. Desenvolveu O Santo e a Porca em 1990 de Ariano Suassuna, não ganhou nada pois Suassuna era mal visto na época, só 12 anos depois com a reapresentação ganhou o prêmio Shell.

Finalmente em 1992 aconteceu o reconhecimento de seu trabalho com Viagem ao Centro da Terra, uma travessia de um túnel abandonado sob o Rio Pinheiros, batizado como túnel da Erundina. A ideia partiu de um livro que estudou O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell, que explica a teoria do monomito onde o todas as histórias de heróis tem um denominador comum. Sua estrutura se divide em separação, iniciação e retorno, ou seja, está no mundo do conhecido, entra no desconhecido, da aventura ou no ventre da baleia (termo usado por Campbell e muito admirado por Ricardo) e volta distribuindo conhecimento para os outros.

Acredita que a arquitetura o ajudou a visualizar os espaços urbanos a serem utilizados como cenário de espetáculos. Seu pensamento era ocupar a cidade artisticamente, com Viagem ao Centro da Terra ele conseguiu. Montou uma super produção em um túnel e fez do público seu ator principal. O espectador comprava a passagem para a expedição e passava por experiências táteis, sensórias, auditivas, emotivas e intelectuais. No final não tinha aplausos, recebia um vinho e escrevia um depoimento, e quando abriam a porta estavam exatamente de onde partiram. “Essa á a fórmula que aplico sempre”, afirma ao explicar como era a expedição.

Em seguida A Grande Viagem de Merlin em 1995 com um itinerário de 130 km, só foi possível com a colaboração dos órgãos públicos. Depois A Viagem ao Centro da Terra no Rio de Janeiro, construída com infláveis por Otávio em 2001. No mesmo ano inaugurou o Teatro do Centro da Terra, o nome é em homenagem ao espetáculo de 1992, o espaço é subterrâneo e localizado no bairro de Sumaré em São Paulo.

Ricardo e Otávio, publicitário, faziam uma dupla de criação que se desenvolvia naturalmente mas sempre obteve muita técnica. “Tínhamos discussões bravas sobre opiniões diferentes, passávamos dias discutindo, depois um estava defendendo a opinião do outro e chegávamos a uma ideia consensual” conta Ricardo.

O próximo trabalho foi O Ilha do Tesouro em 2005, uma aventura de pais e filhos. Peça lúdica e itinerante, adaptada em 2007 com infláveis do Shopping Center Norte e sua reapresentação a pouco tempo em 2013. Estreou Sobre-viventes, no ano seguinte Um Corpo D`Água, 2007 Pneuma e também Kronoscópio, apresentação gratuita com apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro.

Bernardo Galegale de 29 anos, sociólogo, o conheceu durante os ensaios do Kronoscópio e passou a ser seu assistente. Possuem uma relação de amizade e respeito profissional. “Ele me cobra se não vou à seus eventos pessoais”, diz Bernardo e afirma que Ricardo formou sua postura artística.

Criou e dirigiu Aguáh – O Espírito das Águas em 2009, um ano depois Teatrokê e Noites na Taverna, em 2011 Biliri e o Pote Vazio com apresentações em São Paulo e Brasília, e nova temporada em 2013. Conto Chinês com intervenções multimídia, característica do trabalho de Ricardo, inspiradas no teatro de sombras.

Jarbas Bela Karman, seu progenitor, foi sua inspiração, arquiteto e muito criativo criou sua própria indústria para produzir suas invenções. O pai lia muitos livros e praticamente inventou a arquitetura hospitalar. Faleceu com 91 anos com um ataque cardíaco fulminante. Zaíra Karman sua mãe e os 3 irmãos Vera Helena, Roberto e Jarbas, falecido recentemente em um acidente de moto com 60 anos, completam o ciclo familiar. Dona de muitas imóveis localizados na região da Sumaré a família Karman tem uma praça em sua homenagem chamada Praça Irmãos Karman, inclusive Ricardo que além de diretor também é empresário.

Sempre muito estudioso era o melhor aluno da classe, com apenas um amigo Giovane, com quem mantém contato até hoje, faziam experiências malucas. “Tinha um livro da 2ª Guerra Mundial e fizemos todas os explosivos utilizadas, chegamos ao ápice desenvolvendo a nitroglicerina”, conta o diretor sorrindo. Eram marginalizados pelos colegas, com isso a amizade ficou mais consolidada. Certa vez seu colega levou um solvente para a escola que limpava todas a carteiras. Suas experiências pareciam brincadeiras, mas eram realizadas com muito estudo e técnica. Todo esse conhecimento de física e química foi parar na Arte produzida
por ele.

Quando pequeno, seu tio, que estudava história da arte, o levou para ver o filme 2001 Uma Odisseia no Espaço e pediu para que contasse o que entendeu do filme, Ricardo o surpreendeu com detalhes que seu tio não havia observado e isso virou um acontecimento na família.

Casou-se com Keren Ora Admoni Karman, coordenadora do Grão do Centro da Terra, escola de artes para crianças e jovens de 5 a 15 anos, nascida da parceria entre a Escola Grão de Chão e o Teatro do Centro da Terra. Tem 3 filhos e duas vezes ao ano viajam para lugares diferentes como Amazonas para conhecer as tribos. Secretamente pesquisou histórias sobre sua família e da esposa e construiu um roteiro até o encontro dos dois. Ficou fascinado como cada família tem histórias fantásticas guardadas.

Renato Rene de Souza de 32 anos, coordenador de projetos, trabalha com Ricardo no Teatro do Centro da Terra como ator e produtor e o descreve como um homem caseiro e reservado.

Em todos seu trabalhos utiliza-se de técnica e conhecimento científico. “Desejava colocar o computador no palco, mas sabia que seria muito chato e resolvi colocar dentro da minha cabeça”, conta Ricardo. Foi estudar informática, aprendeu a fazer programação e chegou a criar programas que foram utilizados em seu escritório. Está sempre em busca da tecnologia, é movido pela curiosidade e carrega consigo uma filosofia “Tento sempre ser o homem da minha época”.