
Crédito: Laura Uliana
Era assim que Victor Dragonetti, o Drago, pretendia ficar após postar as fotos na página do Coletivo Selva SP, da primeira manifestação do Movimento Passe Livre (MPL) a que ele foi. Ele só não imaginava que uma destas fotos ganharia o Prêmio Esso de Fotografia de 2013. No dia 29 de setembro, na Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, Drago esteve no teatro da instituição contando essa e outras histórias da sua trajetória como fotógrafo.
Drago começou contando que não era bom aluno, mas tinha talento para a fotografia. Ironicamente, seu primeiro trabalho fotográfico foi em uma escola estadual de São Paulo, que tinha projetos diferentes; Drago, com seu olhar inovador, fotografou os alunos de uma maneira como a escola pública não era retratada normalmente, de uma perspectiva positiva e otimista.
O desafio seguinte, contado na palestra, foi o de fotografar a “Roupa de Domingo na Praia”. Mas como? Pela primeira vez, Drago pensou que podia usar qualquer palavra para pensar em foto. Em 2012, ele e outros sete fotógrafos fundaram o Coletivo Selva SP, hoje formado por 25 fotógrafos, para produzir imagens de ruas soltas para a interpretação de cada um. Durante a palestra na Cásper, Victor mostrou o trabalho de cada um dos fotógrafos do Selva e falou um pouco sobre eles.
Em 21 de dezembro de 2012, era para o mundo acabar. Drago decidiu que aquela era uma noite para ser fotografada e, no fim, tinha muita coisa acontecendo e, para ele, foi um dia bastante especial.
Mas o que deu visibilidade para Dragonetti e o Coletivo Selva foram os protestos de junho de 2013. Os desafios do hard news acabaram por promover o coletivo e seus fotógrafos, incluindo o próprio Drago. Para finalizar, Victor mostrou as fotos de seu projeto (in)dependência, iniciado antes das manifestações, com o qual ele visa desconstruir o sentido da palavra independência.
Após a apresentação de Drago, a mesa abriu para as perguntas. O primeiro a perguntar foi o mediador, professor Ari Vicentini, questionando Victor sobre como a famosa foto “Policial armado afasta agressores” foi parar na Folha de S.Paulo. A resposta foi esclarecedora.
A imagem, clicada durante a terceira manifestação do MPL, era para ser postada pelo Coletivo Selva. Drago foi para a manifestação fotografar, com o intuito de postar “feliz da vida”. Ele já sentia que a foto poderia ser usada para algo além do Selva, porém, nunca imaginou ganhar um prêmio com ela. No outro dia, a Folha fez contato com ele para comprar a imagem e, após longas negociações, aceitou vendê-la e conseguiu um emprego no jornal. Durante vários momentos, Drago falou que se sentiu mal pelo uso indevido da foto; ele era a favor dos manifestantes, mas a foto foi usada contra eles.
Além disso, não achou que a foto representava bem os protestos. Mas, ainda assim, ganhou o Prêmio Esso de Fotografia. Ele contou que não se sentiu ansioso e não tinha pensado no prêmio até a noite anterior ao resultado. Surpreendeu-se ao ver que tinha ganhado.

Crédito: Laura Uliana
Durante o debate na Semana de Jornalismo, houve várias questões interessantes, tanto técnicas (como a de um aluno que perguntou sobre a velocidade de fotometria), quanto ideológicas. A mediadora Simonetta Persichetti perguntou se eles (os participantes do Selva SP) se consideravam uma alternativa para o fotojornalismo ou se nem pensavam em fotojornalismo. E eles revelaram: nem pensam em fotojornalismo.
Para Drago, o fotojornalismo limita a leitura de uma foto; ele busca uma fotografia com valor histórico que, no futuro, possibilite outras leituras além da jornalística. Além disso, ele não acredita na pretensa imparcialidade fotojornalística; para ele, a fotografia é sempre parcial.
O aluno Paulo, do JOC, fez uma pergunta muito pertinente: como se sustenta o coletivo? O Selva nasceu sem a proposta de arrumar cliente, tanto que em 2012 foi a única vez que eles conseguiram vender algo juntos; cada integrante ganha por si. Eles preferem muitas vezes, como bem disse o Drago, “viver isso do que viver disso”.
Durante o debate, foram levantadas também diversas questões relativas ao respeito à pessoa fotografada e à intimidade com ela, além do distanciamento do assunto fotografado. Foi até citado o caso de Kevin Carter, o famoso fotojornalista sul-africano, integrante do Clube do Bang-Bang, que suicidou-se após ganhar um Pulitzer.
O debate, mediado pelos professores Ari Vicentini e Simonetta Persichetti, titulares da disciplina de fotojornalismo da Faculdade Cásper Líbero, abriu o ciclo de palestras do período noturno da 22ª Semana de Jornalismo.
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