Vingança encadernada salpicada de tinta

Por: Andressa Lelli Ramos Gomes, aluna do 1º ano de Jornalismo

"A Sangue Frio" é exemplo de narrativa que une jornalismo e literatura

 

Crédito: Reprodução

Fato ou invenção? Este é o maior questionamento quando o assunto é jornalismo literário. Como saber quando se extrapolam os limites da realidade? Como romancear histórias sem apelar para invencionice e sem se perder em meio a balelas? É possível identificar que o autor do livro A Sangue Frio, Tuman Capote, se expressa acertadamente com relação a essas preocupações na hora de escrever sobre o caso da família Clutter.

Texanos e tradicionalmente agricultores, os Clutter são retratados como o centro das atenções em Holcomb e reconhecidos como o claro exemplo da família perfeita. A vida seguia pacata na cidadezinha do interior do Texas, entretanto, na noite do dia 15 de novembro de 1959, o silêncio é quebrado pelo tormento e dor de uma perda. Uma não. Quatro. 

Herb, Bonnie, Kenyon e Nancy foram fria e truculentamente assassinados. Devido a isso a convivência entre os cidadãos de Holcomb nunca mais será a mesma, inclusive depois de concluído o julgamento e, seis anos depois, condenados os assassinos. Richard Hickock, conhecido como Dick, e Perry Smith não imaginavam que o que seria, originalmente, um pequeno roubo acabaria adquirindo uma magnitude tão grande. Truman retrata Perry como a carta mais fraca do baralho, demonstrando sentimentos e demasiada humanidade díspares daquele estereótipo do assassino. Acredita-se que Capote o teria estampado dessa maneira, pois, supostamente, mantinha relações afetivas com ele. 

Além de demonstrar envolvimento e devoção para com a história da família Clutter, o autor lança mão de um recurso que visa aproximar o leitor dos pensamentos e sentimentos de cada personagem. Este seria o fato de, a cada capítulo, contar histórias paralelas. Enquanto intercorre a história da família e seus vizinhos sobrevêm à narrativa sobre Perry e Dick e seus feitos. O mais interessante dessa utilização é o fato de encerrar cada “cena” em seu ápice, instigando quem lê a virar a noite submerso na narrativa, só para descobrir o que acontecerá.

Truman Capote não é autor de um livro só. Surpreende-se quem descobre também ser o autor do livro que inspirou o filme Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo). Ele não hesitou em ousar na temática, tratando-se de uma protagonista livre e solteira, dando sua contribuição à mudança de como as mulheres eram vistas na época. Ademais, a escrita de Capote é extremamente convincente, podendo guiar o leitor pelos rumos e opiniões que bem desejar. Este seu modo arrojado de escrever também se reflete em sua obra prima alvo desta resenha, o qual revolucionou tanto a forma de se fazer jornalismo quanto a maneira de se encarar uma narrativa, provando ser completamente possível aliar jornalismo e literatura.

A Sangue Frio foi, evidentemente, escrito com o sangue quente típico de jornalista. Assim sendo, sente-se durante a leitura que o sangue dos quatro Clutter, salpicado como tinta pelas paredes da mansão respinga na escrita de forma a provocar repulsa e aversão, como se uma vingança imortalizada em livro.