Faces de um repórter

Por: Gabriela Boccaccio

Patrick Denaud, que foi correspondente de guerra e espião do serviço secreto francês, conta como exerceu essas duas atividades simultaneamente

 

 

Correspondente de guerra internacional, espião e fotógrafo. Estas são apenas algumas das profissões que Patrick Denaud exerceu. Em seu livro de memórias Le Silence Vous Gardera (O Silêncio te Guardará, em tradução livre) lançado na França em 2013, a palavra investigação ganha outros significados. Durante oito anos, ele coletou dados como espião dos serviços secretos franceses – a DGSE (Direção Geral de Segurança Externa). Significa, entre outras coisas, que durante aqueles oito anos Denaud viveu duas vidas (ou duas batalhas): uma em que lutava para manter seus relacionamentos e outra em que lutava contra o terrorismo.

O ano de 1986 foi um período sangrento em Paris. Uma série de 13 atentados do Hezbollah mataram 13 pessoas. Como jornalista, Patrick cobriu o último deles, no dia 17 de setembro, na Rue de Rennes. 7 mortos e uma consciência pesada o fizeram mudar de posição em 1992, quando enviou uma carta para a DGSE, com a esperança de uma resposta, ou até mesmo de uma contratação. Entre 1994 e 2002, participou de diversas missões, que resultaram em livros como FIS: Sa Direction Parle (1997, FIS: Sua Direção Fala, em tradução livre), sobre um movimento argelino islâmico; e Kosovo: Naissance D’Une Lutte Armée UCK (1998, Kosovo: Nascimento De Uma Luta Armada), em que relata a independência do Kosovo.

O que o levou a servir à DGSE?
Em um caso como o do atentado da Rue de Rennes, de 1986, o que você normalmente faz como jornalista? Conta o número de vítimas. O fato era que as coisas que vi no Iraque e no Paquistão estavam acontecendo em Paris.Naquele momento, percebi que o terrorismo era a coisa mais detestável que existia e esse foi um dos fatores que me fez entrar em contato com os serviços secretos. Além de ter um conhecimento sólido do mundo muçulmano,eu já tinha passado bastante tempo ao lado dos talibãs e podia usar minhas competências para ir além da simples contagem de mortos. Ou seja, começar a agir mesmo. Porque, como jornalista, confesso que me sentia umcharlatão, desses que se aproveitam da miséria do mundo e das pessoas para ganhar o seu dinheiro. Eu questionava mesmo essa “bipolaridade”. De um lado, houve esse atentado, que me chocou e me fez perceber o que era o terrorismo; de outro, havia a profissão de jornalista, que não me levava a nada.

Você passou por um estágio de formação para tornar-se espião. Em que consistia essa etapa?
Fui contratado por já ter experiência em zonas de conflito. Eu já era bem formado no mundo da guerra. Quando fiz o estágio na DGSE, eles sabiam muito bem que eu podia até lhes ensinar coisas. O estágio era mais para mostrar as medidas de segurança e como funcionavam os serviços secretos; ser capaz de perceber se estou sendo seguido, se microfones estão implantados no meu quarto, etc. Um serviço secreto deve colocar em prática o maior número de procedimentos de segurança. Por exemplo, toda vez que eu voltava de alguma missão importante, de Londres ou de Bruxelas, onde eu havia conversado com integrantes da FIS(Frente Islâmica de Salvação), eu me reunia com Jacques, meu intermediário, e montava um esquema de segurança para o caso de alguém estar me seguindo. Essas medidas parecem inúteis em 99% dos casos, mas é dentro do 1% que elas podem salvar sua vida. Você precisa ignorar esses 99% e pensar somente na sua segurança.

Ao longo de sua carreira na espionagem você escreveu vários livros, como FIS e Kosovo. Neles, você teve liberdade para incluir o que quisesse?
Não, de jeito nenhum. E quando decidi mergulhar na espionagem eu não era mais jornalista. Apenas usava o disfarce, mas, na verdade, eu era um espião a serviço dos serviços secretos franceses. Toda vez que eu escrevia um livro, tinha que omitir certas coisas, claro. Quando você é um agente secreto, a dificuldade é que você nunca sabe exatamente o motivo de se eliminarem certos dados. Nunca tive nenhuma informação sobre esse procedimento, aliás. Nunca sabia qual seria o uso das informações que eu coletava. Eu ficava disfarçado de correspondente de guerra, mas agia para a DGSE, e os livros eram sempre encaminhados para lá antes da publicação. Era ela quem determinava o que podia ser usado e o que devia ser omitido. Um agente secreto é na verdade um bom soldado; e, quando você é um bom soldado, você obedece.

Para escrever esses livros, você teve que se infiltrar em ambientes perigosos. Psicologicamente, como se sentia?
Em um dado momento, não sabia mais o que eu era, porque, no fundo, ainda me sentia um pouco jornalista. Então, publiquei livros que precisavam ser consistentes para conseguir sustentar o meu disfarce. Aconteceu com o movimento argelino da FIS, por exemplo. Os serviços secretos pediram que eu me infiltrasse no movimento e recuperasse o maior número possível de informações. A única maneira de fazer isso era estando em contato com eles enquanto produzia o livro. Tive de convencê-los a aceitar. Às vezes me sentia traindo os jornalistas, meus amigos. Era desconcertante. Nessas horas, o Jacques intervinha. Por isso recebemos o acompanhamento de um psiquiatra, com quem nos encontramos para conversar e colocar as ideias no lugar.

Em um desses encontros com um psiquiatra você foi diagnosticado com Síndrome de Lima, em que a pessoa cria uma relação de compaixão com suas vítimas. Como isso se manifestava nas suas missões?
Eu convivia com pessoas difíceis frequentemente. Não posso dizer que eu desenvolvia uma relação de amizade com as minhas fontes, mas criava vínculos fortes. Mesmo ciente das orientações que os especialistas me davam, era difícil aceitar que os laços criados às vezes tinham de ser cortados abruptamente. Mas, de novo, Jacques intervinha, aconselhava, dizia que tudo aquilo era por uma boa causa: a luta contra o terrorismo, contra o radicalismo político islâmico, contra a morte.

Você ficou satisfeito com sua contribuição?
Minha vida de agente secreto começa e termina com um atentado. Entre esses dois eventos muitas outras coisas aconteceram. Acredito que participei ativamente. As informações que eu trazia impediram pelo menos um atentado. Além do mais, os dados que obtive ajudaram o governo francês. A gente se torna espião também por patriotismo…

Sua carreira se encerrou abruptamente com o atentado de Karachi, no Paquistão, em maio de 2002. Como foi isso?
Em março daquele mesmo ano eu já estava em Karachi. Ao entrevistar um sujeito chamado Ahmed, do Tanze(e) mul Party, um partido proibido e próximo ao Al-Qaeda, entendi que muitos interesses franceses estavam em risco.
Voltei para a França, fiz um relatório detalhado e comuniquei à minha “intermediária”, que, naquela época, não era mais o Jacques, mas a Véronique, uma mulher jovem. Eu disse que era preciso tomar cuidado, pois os interesses franceses corriam perigo. E no dia 8 de maio sofremos o atentado. Fiquei sem rumo, me perguntando: por que não protegeram os cidadãos que estavam lá? Não sei se havia alguma questão política por trás, mas o fato é que eu havia passado oito anos da minha vida em perigo e, de repente, eu estava fora (ele foi demitido justamente por ter reclamado sobre a falta de vigilância). Embora seja esta a regra do jogo, não consegui lidar muito bem com isso, na época.

Juntamente com Jacques, seu primeiro “intermediário”, você chegou a montar o projeto de uma agência de notícias para os serviços secretos. Por que a ideia não vingou?
Nunca soube por que não deu certo. Eu tinha sido presidente do Sindicato Nacional das Agências de Notícias. Tive vários encontros. Seis meses de trabalho foram por água abaixo. Qual o verdadeiro motivo? Ignoro, não sei. Pensei muito a respeito. Não era fácil para mim fundar uma agência que, no fim das contas, era para os serviços secretos franceses. Até mesmo pelo fato de eu ter sido presidente do Sindicato. O objetivo era a luta contra o terrorismo. Não era uma coisa qualquer.

Como é a imagem de um espião na França?
É um tabu na imprensa francesa. Por exemplo, Albert Londres, um grande jornalista francês, um dos maiores do país. O prêmio que leva seu nome é almejado por jovens jornalistas. Ele tinha muito talento e também trabalhou nos serviços secretos, assim como muitos outros jornalistas (talvez não da mesma forma que eu, mas tinham contatos e forneciam informações). Quando você é jornalista, coleta informações e as publica; quando você é espião, as informações têm outros destinos. Jornalista, voluntário, geólogo… Não existem muitos disfarces para ser espião em zonas de conflito.

Você pretendia mudar essa visão sobre os serviços Em suas memórias, Denaud detalha os oito anos dedicados à DGSE secretos com a publicação de seu livro de memórias?
Precisava mostrar para as pessoas que o trabalho de um espião não é como o do 007, com armas. É um trabalho difícil. Queria desmistificar a imagem do espião. É a primeira vez que falamos abertamente disso. Outros agentes secretos escreveram livros, mas a DGSE sempre estava por trás e eles não podiam narrar suas histórias com sinceridade. Eu precisava contar tudo sobre o período o que absorveu oito anos da minha vida.

Antes de se tornar espião, você foi correspondente, mas sua formação é em cinema e psicologia. Por que o jornalismo de guerra?
Acho que ser correspondente de guerra é uma experiência muito peculiar, mas não sei ao certo o que me fascinou. Eu pensava que filmar a guerra podia ajudar a erradicála, o que era completamente utópico. Além disso, havia o fator da aventura: atravessar o Afeganistão a pé, por exemplo. Isso marcou minha vida. Toda experiência era nova, e as pessoas eram simplesmente surpreendentes. Quando comecei a trabalhar com jornalismo de guerra, eu gostava das figuras que encontrava. Personagens sinceros, que colocavam tudo a perder, e muito autênticos. Os correspondentes de guerra, os mais famosos e os que conheci, eram loucos em pequena escala (risos). Eu não sei se eu era atípico, mas as pessoas que encontrei eram. Quando criança, adorava Tintin. Acho que foi ele que me levou a ser a pessoa que sou hoje.