A exclusão digital nas artes contemporâneas

Por: Renata Cezaretto

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Edição nº zero – 2013

Em setembro de 2012, a Artforum lançou uma publicação dedicada à arte, tecnologia e mídias, na qual Claire Bishop escreveu o polêmico artigo: Digital divide, em Contemporary art and new media. O artigo sobre a exclusão digital nas artes contemporâneas ainda levanta discussões aqui no Brasil e, mais de um ano depois, foi motivo de uma série de vídeos com depoimentos de profissionais da arte, produzidos durante a IV Mostra 3M de Arte Digital, que aconteceu de 9 de outubro a 3 de novembro, no Instituto Tomie Ohtake.

Claire Bishop, professora associada do programa de doutorado em história da arte na CUNY Graduate Center, em Nova York, discute nesse artigo a relutância do mercado da arte contemporânea em lidar com essas mudanças causadas pela digitalização do nosso mundo e da nossa experiência cotidiana e, também, levanta a questão da arte midiática como área pertencente a um circuito especializado. Esse artigo acabou gerando muitas reações e criando outras discussões. Para Gisela Domschke, curadora da IV Mostra 3M de Arte Digital, esse é um debate que está muito presente, inclusive em função das mudanças que as políticas governamentais estão causando em relação ao apoio que existia – e não existe mais – a centros e organizações que realizavam pesquisas dedicadas à arte midiática: “Eu particularmente vejo essa questão do digital como algo que está completamente imerso na nossa experiência. As mudanças transformadoras da arte não vêm pela tecnologia elas vêm pela ideia, pelo conceito”.

Gisela Domschke estendeu essa discussão à exposição e convidou artistas e profissionais da área para darem a sua opinião numa série de vídeos que contou com a participação de nomes relevantes, como Ricardo Ohtake, Agnaldo Farias e Fernando Velásquez. Além de inteligentes reflexões como as dos artistas Rejane Cantoni e Leo Crescenti, podemos conhecer as transformações que os artistas digitais estão realizando nas artes contemporâneas: “O primeiro trabalho que a gente fez e expôs na Pinacoteca foi importante, o pessoal da área digital e tecnologia ligava pra gente: vocês colocaram a obra na Pinacoteca, isso é um marco!”, diz Rejane, e também sobre as dificuldades encontradas, como o preconceito da própria curadoria: “Recentemente eu vi um importante curador contemporâneo falando eu não entro em sala escura, e o que é isso dessa tal de arte interativa?”, conta a artista.

Só notamos o digital quando há a ausência dele, como água potável ou ar – Nicholas Negroponte, um dos fundadores do Media Lab – laboratório de multimídia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), faz essa comparação em 1998, em um artigo da Wired. Pensar essa especificidade do digital, hoje, deveria ser algo redundante.

Os vídeos com os depoimentos estão disponíveis na internet, no endereço IV Mostra 3M de Arte Digital, para quem quiser acompanhar essa discussão de perto.